"É uma coisa tremenda a brutalidade dessa sociedade. Ela come não só o pobre, mas a consciência dele." Darcy Ribeiro A- Culpados Depois da catástrofe do último 20 de Fevereiro, a maior desfaçatez passeia-se nas praças, nos lugares do governo da Cidade, através dos média. São rostos e mãos associados que não se podem eximir das suas responsabilidades. Existem rostos e mãos impregnadas à dimensão da tragédia e à sua expressão em matéria de perda de vidas e extensão dos danos. Expeditas que são na arte de varrer para a prateleira das omissões o conjunto das suas irresponsabilidades, ostensivamente apresentam mãos lavadas, rostos insuspeitos e intitulam-se beneméritos e empenhados reconstrutores. B- 1993 Na Madeira, a aluvião de 29 de Outubro de 1993 teve efeitos devastadores. Naquele tempo, para além dos esforços desenvolvidos com o objectivo de se apurarem as responsabilidades e os responsáveis políticos pela dimensão da tragédia, foram, posteriormente, realizados estudos com a finalidade de alertar a governação para cada um dos factores que potenciavam eventuais riscos naturais. Foram propostas estratégias para a mitigação dos efeitos de uma futura aluvião. Quem consulte as actas das reuniões da Câmara Municipal do Funchal, logo na primeira reunião depois da aluvião, realizada a 04 de Novembro de 1993, verificará que foram identificados os problemas e apontadas causas para as graves destruições. Denunciadas as muitas negligências, afirmou o Vereador Arlindo Oliveira: "É tempo de fazermos uma reflexão sobre o sucedido para que estes erros nos sirvam pelo menos de lição". C- 2010 Muitas medidas poderiam ser tomadas para reduzir os impactos da catástrofe de 20 de Fevereiro. Muito se deveria ter investido na minimização das situações de risco. O Plano Regional de Ambiente (Maio de 2000) definiu estratégias e medidas de intervenção de entre as quais, para prevenir aluviões como a de Outubro de 1993, foram aprovadas acções e recomendações. O Funchal aprovou em 2003 o Plano de Protecção Civil que previa a elaboração da Carta de Riscos, até hoje por elaborar. O Diário de Notícias publicou um trabalho notável (Revista, 30/10/2005) de alerta e denúncia. Aí se demonstra como a Cidade estava mais vulnerável às cheias: anos passados sobre a aluvião de 29 de Outubro "a repetição de uma ocorrência do género teria, muito provavelmente, consequências ainda piores.". Foi então exposto o estudo da equipa do Engº. João Baptista. Trabalhos científicos e intervenções foram divulgadas, entre muitos outros, de Raimundo Quintal, da Quercus, de Hélder Spínola, Domingos Rodrigues, manifestando preocupações e reflexões depois da aluvião de 1993. Quantos debates, conferências, exposições se seguiram: de que serviu alertar? De que serviram os planos, as estratégias e as medidas aprovadas? Não serviram para minimizar a catástrofe, mas ajudam a localizar os culpados. D- Brutalidade "A prioridade tem sido a normalização da vida da Cidade", disse a governação em 1993, tal como o tem repetido à mesma em 2010. Apesar do descaso dos culpados é manifesta e irrefutável a ligação entre algumas das mais severas expressões assumidas pela tragédia de 20 de Fevereiro de 2010 e a acção irresponsável da gestão do território e da criminosa política urbanística determinadas por um modelo económico assente na especulação e na busca do lucro fácil que tem naturalmente rostos e mãos associados que não se podem eximir das suas responsabilidades. Edgar Silva
"É uma coisa tremenda a brutalidade dessa sociedade. Ela come não só o pobre, mas a consciência dele." Darcy Ribeiro
A- Culpados Depois da catástrofe do último 20 de Fevereiro, a maior desfaçatez passeia-se nas praças, nos lugares do governo da Cidade, através dos média. São rostos e mãos associados que não se podem eximir das suas responsabilidades. Existem rostos e mãos impregnadas à dimensão da tragédia e à sua expressão em matéria de perda de vidas e extensão dos danos. Expeditas que são na arte de varrer para a prateleira das omissões o conjunto das suas irresponsabilidades, ostensivamente apresentam mãos lavadas, rostos insuspeitos e intitulam-se beneméritos e empenhados reconstrutores.
B- 1993 Na Madeira, a aluvião de 29 de Outubro de 1993 teve efeitos devastadores. Naquele tempo, para além dos esforços desenvolvidos com o objectivo de se apurarem as responsabilidades e os responsáveis políticos pela dimensão da tragédia, foram, posteriormente, realizados estudos com a finalidade de alertar a governação para cada um dos factores que potenciavam eventuais riscos naturais. Foram propostas estratégias para a mitigação dos efeitos de uma futura aluvião. Quem consulte as actas das reuniões da Câmara Municipal do Funchal, logo na primeira reunião depois da aluvião, realizada a 04 de Novembro de 1993, verificará que foram identificados os problemas e apontadas causas para as graves destruições. Denunciadas as muitas negligências, afirmou o Vereador Arlindo Oliveira: "É tempo de fazermos uma reflexão sobre o sucedido para que estes erros nos sirvam pelo menos de lição".
C- 2010 Muitas medidas poderiam ser tomadas para reduzir os impactos da catástrofe de 20 de Fevereiro. Muito se deveria ter investido na minimização das situações de risco. O Plano Regional de Ambiente (Maio de 2000) definiu estratégias e medidas de intervenção de entre as quais, para prevenir aluviões como a de Outubro de 1993, foram aprovadas acções e recomendações. O Funchal aprovou em 2003 o Plano de Protecção Civil que previa a elaboração da Carta de Riscos, até hoje por elaborar. O Diário de Notícias publicou um trabalho notável (Revista, 30/10/2005) de alerta e denúncia. Aí se demonstra como a Cidade estava mais vulnerável às cheias: anos passados sobre a aluvião de 29 de Outubro "a repetição de uma ocorrência do género teria, muito provavelmente, consequências ainda piores.". Foi então exposto o estudo da equipa do Engº. João Baptista. Trabalhos científicos e intervenções foram divulgadas, entre muitos outros, de Raimundo Quintal, da Quercus, de Hélder Spínola, Domingos Rodrigues, manifestando preocupações e reflexões depois da aluvião de 1993. Quantos debates, conferências, exposições se seguiram: de que serviu alertar? De que serviram os planos, as estratégias e as medidas aprovadas? Não serviram para minimizar a catástrofe, mas ajudam a localizar os culpados.
D- Brutalidade "A prioridade tem sido a normalização da vida da Cidade", disse a governação em 1993, tal como o tem repetido à mesma em 2010. Apesar do descaso dos culpados é manifesta e irrefutável a ligação entre algumas das mais severas expressões assumidas pela tragédia de 20 de Fevereiro de 2010 e a acção irresponsável da gestão do território e da criminosa política urbanística determinadas por um modelo económico assente na especulação e na busca do lucro fácil que tem naturalmente rostos e mãos associados que não se podem eximir das suas responsabilidades.
Edgar Silva