Ana Sofia Lopes Pinto Correia Deu tempo. Nas linhas e frase que serena esculpiste, bastaram as horas e as tintas que gastaste. Dos olhos e das mãos gastas, fica mais que a memória de tela imperecível e da voz surda e cega que ecoa nos vales que construíste. Sim, deu tempo. Deram os dias e os anos de mulher segura, mulher guerreira e mulher leoa, que de mulher e de poeta, talvez sacra, quiçá cáustica, sempre te desenhaste com linhas pretas de carvão espesso, daquelas que o vento não talha e o eterno conserva. Das pedras do teu caminho, bem, ousadamente riste-te delas, banhaste-as com gargalhadas faustas e abafaste-as com os teus pés nus, com a pele glabra já calejada de tanta ferida e sangue rubro de uma vida opípara que valeu a pena. Despida de véus de medo, andaste como quem corre em ruas, estradas e pontes negras, com um peito intrépido sopraste as nuvens pardas e fizeste o sol entrar. Com a força nos braços e na alma trabalhaste uma terra selvagem, ensopada com o teu suor incansável e ofegante, com chama nos olhos e numa voz, demasiado grande para um corpo só, num mundo que não estava ainda preparado. Mulher menina, mulher senhora, pulcra nas artes e dona das palavras, que não as encontro mais verdadeiras. Lusíada em mim (nós), na obra que criaste e nas ondas que impassível domaste. Mulher lua e mulher sol, mulher universo, que não te apoquentaste quando se deitou em ti o lençol derradeiro, ao invés o olhaste nos olhos, cumprimentaste e sorriste, entregaste o corpo e deixaste tudo o resto. De mãos dadas e serena, encontraste por fim a paz. Deu tempo. Porque este anjo de morte com vestes pretas não te pode tirar senão a vida. Agora nasce, é hora de renasceres devagar e em mim, neles e em todos, nos teus filhos e nos teus, nos nossos e nos que nunca te pertenceram. Nasce porque se a tua vida não é perene, é infinita nos que ficam.