Procuram-se donas de casa para gerir Portugal e, em part-time, a Região Autónoma da Madeira. Exige-se experiência de pelo menos quinze anos na gestão de orçamentos familiares e declaração dos respectivos maridos e filhos, se os houver, que confirme a sua competência na gestão dos recursos financeiros do agregado, sem recorrer ao endividamento. Não serão aceites candidaturas de donas de casa que executem mensalmente despesas para além das suportadas pelo seu vencimento e o do marido. Dá-se preferência por donas de casa que tenham práticas de poupança. Este poderia ser um anúncio para formar um novo governo para o país e para a Região Autónoma da Madeira. Na verdade temos sido governados, cá e lá, por pessoas que têm como prioridade ganhar eleições, deixando-se levar pelas políticas fáceis e populistas que enfartam os que muito têm e contentam o povo com migalhas. No tempo das vacas gordas, altura em que deveríamos ter endireitado as finanças públicas, aumentamos o défice para viver acima das nossas posses, derretendo o orçamento disponível e recorrendo, ano após ano, ao endividamento. E não foram só os governos, as autarquias também não ficaram para trás, nem mesmo as empresas e as famílias. Agora, em tempo das vacas magras, com orçamentos mais escassos, não temos nenhuma reserva que nos permita dar alguma folga ao aperto do cinto, com a agravante de todos nos exigirem uma redução rápida do défice. Esta situação faz-me lembrar o meu vizinho Castelo, memória da minha infância, que dizia que só poupava quando não tinha. Assim é a Madeira, assim é o país. Na abundância esbanja, na penúria, sem pé-de-meia, tem de poupar. Uma equipa de donas de casa, bem seleccionadas, faria muito melhor do que os governantes que nós próprios temos eleito nas últimas décadas. Não me refiro às donas de casa que cedem às birras dos filhos quando exigem sapatilhas e calças de marcas caras, play stations ou mesmo dez euros por dia para gastar na escola. Ou aquelas que vão duas vezes por semana ao cabeleireiro, uma para esticar outras para ondular, ou que mudam de cortinas lá em casa uma vez por ano. E muito menos as que insistiram em comprar uma casa mais cara do que a que podiam pagar, ficando com dívidas no banco difíceis de gerir, ou as que gastam, através do cartão de crédito, o seu ordenado um mês antes de o receber. Dessas donas de casa não queremos pois são iguais aos governantes que têm dirigido os nossos destinos. Precisamos daquelas donas de casa que se sentem desconfortáveis e não descansam enquanto não devolvem o quilo de açúcar que pediram à vizinha ou que cosem a costura das calças que se descoseu, em vez de as deitar no lixo e comprar outras. Queremos as que chateiam o marido para não gastar o dinheiro no tabaco e no álcool e as que sabem que têm de poupar um pouco de cada ordenado para qualquer eventualidade futura, uma doença ou mesmo um funeral. Queremos as que guardam os restos de uma refeição para outra e as que tomam atenção aos gastos de electricidade, água e gás para que não pesem tanto ao fim do mês. Enquanto escolhermos governantes que se deixam levar pela euforia populista de gastar os orçamentos em obras faraónicas e na promoção de projectos condenados à falência, exaurindo o nosso país e esta região dos seus recursos, não poderemos, mesmo depois da crise passar, ter esperança de que alguma vez deixaremos de ser um dos elos mais fracos da Europa e do mundo ocidental.
Hélder Spínola