"Nem a chuva amainou ainda, nem o sudoeste deixou de soprar em rajadas fortes, nem é menor o frio que há pouco sentia. Porém, ao olhar pela vidraça, como quem espairece o ânimo alquebrado por um momento de desânimo ou talvez de cansaço, que vejo? Que esperança é esta que sinto correr com o meu sangue? Desculpai a confidência: à chuva, ao vento, as roseiras que podei em Dezembro rebentam já, e um cacho de glicínias - um só cacho ainda - antecipa-se em promessa do que será, em breve, um lençol lilás… Portugueses somos, amigos. É bom sabê-lo - e assumi-lo." - Joel Serrão Se a portugalidade representa o melhor de Portugal e dos Portugueses, a Educação é um dos vectores da defesa e a consolidação dessa portugalidade, que se comemora em mais este Dia de Portugal: a terra, a cultura, o povo e o seu escritor épico. Primeiro, porque a Escola não é neutra. Promove os valores culturais que a sociedade portuguesa considera essenciais para os seus membros e que nos define enquanto povo, nos confere identidade e nos dá o sentido nacional da nossa cultura. Segundo, porque as aprendizagens, que se querem significativas e de qualidade, preparam os cidadãos portugueses para dar o seu melhor, ter uma vida mais próspera e, consequentemente, e contribuir para o desenvolvimento e crescimento do País. E sendo a língua e cultura portuguesas pilares da identidade portuguesa, é na Escola que é promovida em grande medida. Será que um Ministério da Educação ou Secretaria de Educação que aceitam a indisciplina e a violência nas escolas e degradam as condições laborais e de exercício da profissão docente contribuem para uma melhor Educação e, consequentemente, para o melhor dos portugueses e o reforço da portugalidade? Quando se degradam as condições de ensino-aprendizagem nas escolas, degradam-se as aprendizagens dos estudantes, as qualificações e, em última instância, a produtividade e desenvolvimento económico e social do país. A escola não pode desvalorizar a qualidade das aprendizagens, mesmo que os discursos sejam no sentido contrário à prática, porque resolve dar prioridade ao seu papel social e de acolhimento. Valorizando as aprendizagens estamos a valorizar o saber, a escola, o trabalho dos professores e, acima de tudo, os estudantes, porque a aprendizagem é um factor fundamental de inclusão, democratização do ensino, garante da igualdade de oportunidades, sucesso pessoal, preparação para a vida e mobilidade social. Se a actual degradação da carreira docente e a respectiva penalização salarial em nada contribui para a valorização da Escola portuguesa e do conhecimento, o problema da indisciplina e violência escolar corrói o desempenho de estudantes e professores, todos os dias. Os professores e educadores vivem essa realidade nas escolas. Conhecem-na e sentem-na melhor do que ninguém. Sofrem-na mesmo. E preocupam-se com o futuro destes jovens e do futuro colectivo, que se quer próspero. Sobre o problema da indisciplina e violência, as tutelas educativas continuam na senda do facilitismo e da permissividade, sem vontade e coragem políticas de tomar as medidas óbvias para contrariar a degradação do ambiente escolar, a generalização da atitude negativa face ao trabalho intelectual e a degradação da qualidade das aprendizagens e resultados escolares. Não pode continuar a haver silêncios, meias-medidas ou hesitações à volta deste problema. Quem nos dera que os governos, de cá e de lá, valorizassem o trabalho dos professores e garantissem as condições essenciais de trabalho nas escolas, para o ensino e a aprendizagem, com a mesma urgência e determinação com que encerram escolas e burocratizam o labor pedagógico dos docentes. Não será um bom contributo para a portugalidade…

Marília Azevedo