Gosto de citar Kennedy, nestes momentos difíceis: 'não perguntem o que o país vos pode dar mas sim o que poderão dar ao país'. A crise domina a actualidade. É difícil não falar dela e não sofrer o seu impacto. É impossível ficar insensível às imagens de caos público que se vê, através das televisões, na Grécia.Na opinião pública é agora claro que somos todos vulneráveis.Primeiro, percebe-se agora que as soberanias dos Estados são muito limitadas. Já se tinha a noção disso com a globalização: sempre que uma borboleta bate as asas na China os efeitos fazem-se sentir cá… Sempre que um vulcão distante expele cinzas para a atmosfera o nosso mundo de proximidade pára. Param os aeroportos, entram em dificuldades os hotéis, as agências de viagens perdem dinheiro, os agentes e fornecedores do turismo entram em dificuldades...Mas percebe-se agora que os povos, países e regiões menos responsáveis na sua gestão colectiva e individual, aqueles que se endividaram para além do razoável e ficaram dependentes de vontades exteriores… esses então não são donos do seu destino. Não são soberanos. Não são autónomos.Em segundo lugar, percebe-se agora que Estados e Regiões podem entrar em incumprimento e falir e que a moeda única não é um salvo conduto para evitá-lo. A possibilidade de um Estado ou Região da Europa entrar em colapso parecia uma hipótese meramente académica. Mas vê-se agora que não é um cenário teórico nem remoto. Ia acontecer (ou pode ainda acontecer) à Grécia. Pode, sem dúvida, ser real em países do sul como Portugal e Espanha. Menos provável nos países mais dependentes de uma poupança interna forte, como a Itália. Mais provável nos países financiados externamente ou com fortes debilidades estruturais de competitividade, como nós. Menos provável nos países que conseguem dar respostas mais fortes, coesas e rápidas, como a Irlanda.Em terceiro lugar, percebe-se agora que afinal a saída do Euro é equacionável e que mesmo o Euro não é eterno. Pode colapsar. Essa é a hipótese no fio da navalha...Seria verdadeiramente uma solução dramática. Para a Europa porque seria geradora, durante um longo período, de fortes e perigosos desequilíbrios: Seria um retrocesso na construção de um espaço europeu de coesão. Uma 'caixa de Pandora' que se abriria...Dramático também para o quotidiano das nossa vidas. Imagine o leitor endividado passar a pagar juros bancários de dois dígitos (12%, 15%, mais?). Imagine os seus activos desvalorizados. Imagine todos os bens e serviços importados passarem a custar-nos mais 20% ou 30%. Imagine o eleitor de classe média que as suas viagens e gastos no exterior passam a ser mais caros em 30%, 40%. Imagine...Mas como tudo na vida tem duas faces e mesmo as situações mais trágicas são geradoras de oportunidades. Esta situação extrema poderia permitir-nos reequilibrar o país a partir quase do zero resolvendo os problemas crónicos do sobreconsumo e da competitividade externa da nossa base produtiva. Mas, para muitos, seria verdadeiramente penoso. Em tudo isto, um elemento comum. Os povos mais responsáveis e mais capazes de uma cultura de compromisso fazem toda a diferença. A Suécia passou por grandes dificuldades e reergueu-se sendo hoje uma sociedade próspera. Os escandinavos, em geral, têm um sentido colectivo de compromisso notável. A Irlanda anda a fazer o seu caminho de combate à crise internacional. Há dois anos que os irlandeses ajustam os seus salários em queda, face às dificuldades que já em 2008 sabiam que eram sérias e duradouras. Outros preferem não reconhecer a realidade, falam de recuperação 'ao virar da esquina', fogem à verdade...Gosto de citar Kennedy, nestes momentos difíceis: 'não perguntem o que o país vos pode dar mas sim o que poderão dar ao país'. Os cidadãos compreenderão? Os sindicatos estarão à altura? As elites estarão à frente e darão o exemplo? Os governos serão firmes e corajosos em defesa do bem comum, da soberania e da autonomia? Na Madeira como em Portugal e na Europa...Maximiano Martins
Gosto de citar Kennedy, nestes momentos difíceis: 'não perguntem o que o país vos pode dar mas sim o que poderão dar ao país'.
A crise domina a actualidade. É difícil não falar dela e não sofrer o seu impacto. É impossível ficar insensível às imagens de caos público que se vê, através das televisões, na Grécia.Na opinião pública é agora claro que somos todos vulneráveis.Primeiro, percebe-se agora que as soberanias dos Estados são muito limitadas. Já se tinha a noção disso com a globalização: sempre que uma borboleta bate as asas na China os efeitos fazem-se sentir cá… Sempre que um vulcão distante expele cinzas para a atmosfera o nosso mundo de proximidade pára. Param os aeroportos, entram em dificuldades os hotéis, as agências de viagens perdem dinheiro, os agentes e fornecedores do turismo entram em dificuldades...Mas percebe-se agora que os povos, países e regiões menos responsáveis na sua gestão colectiva e individual, aqueles que se endividaram para além do razoável e ficaram dependentes de vontades exteriores… esses então não são donos do seu destino. Não são soberanos. Não são autónomos.Em segundo lugar, percebe-se agora que Estados e Regiões podem entrar em incumprimento e falir e que a moeda única não é um salvo conduto para evitá-lo. A possibilidade de um Estado ou Região da Europa entrar em colapso parecia uma hipótese meramente académica. Mas vê-se agora que não é um cenário teórico nem remoto. Ia acontecer (ou pode ainda acontecer) à Grécia. Pode, sem dúvida, ser real em países do sul como Portugal e Espanha. Menos provável nos países mais dependentes de uma poupança interna forte, como a Itália. Mais provável nos países financiados externamente ou com fortes debilidades estruturais de competitividade, como nós. Menos provável nos países que conseguem dar respostas mais fortes, coesas e rápidas, como a Irlanda.Em terceiro lugar, percebe-se agora que afinal a saída do Euro é equacionável e que mesmo o Euro não é eterno. Pode colapsar. Essa é a hipótese no fio da navalha...Seria verdadeiramente uma solução dramática. Para a Europa porque seria geradora, durante um longo período, de fortes e perigosos desequilíbrios: Seria um retrocesso na construção de um espaço europeu de coesão. Uma 'caixa de Pandora' que se abriria...Dramático também para o quotidiano das nossa vidas. Imagine o leitor endividado passar a pagar juros bancários de dois dígitos (12%, 15%, mais?). Imagine os seus activos desvalorizados. Imagine todos os bens e serviços importados passarem a custar-nos mais 20% ou 30%. Imagine o eleitor de classe média que as suas viagens e gastos no exterior passam a ser mais caros em 30%, 40%. Imagine...Mas como tudo na vida tem duas faces e mesmo as situações mais trágicas são geradoras de oportunidades. Esta situação extrema poderia permitir-nos reequilibrar o país a partir quase do zero resolvendo os problemas crónicos do sobreconsumo e da competitividade externa da nossa base produtiva. Mas, para muitos, seria verdadeiramente penoso. Em tudo isto, um elemento comum. Os povos mais responsáveis e mais capazes de uma cultura de compromisso fazem toda a diferença. A Suécia passou por grandes dificuldades e reergueu-se sendo hoje uma sociedade próspera. Os escandinavos, em geral, têm um sentido colectivo de compromisso notável. A Irlanda anda a fazer o seu caminho de combate à crise internacional. Há dois anos que os irlandeses ajustam os seus salários em queda, face às dificuldades que já em 2008 sabiam que eram sérias e duradouras. Outros preferem não reconhecer a realidade, falam de recuperação 'ao virar da esquina', fogem à verdade...Gosto de citar Kennedy, nestes momentos difíceis: 'não perguntem o que o país vos pode dar mas sim o que poderão dar ao país'. Os cidadãos compreenderão? Os sindicatos estarão à altura? As elites estarão à frente e darão o exemplo? Os governos serão firmes e corajosos em defesa do bem comum, da soberania e da autonomia? Na Madeira como em Portugal e na Europa...Maximiano Martins