Os problemas financeiros da Grécia, vieram ampliar os diferenciais de risco país de diversas economias da zona euro. Voltar a uma situação onde o saldo das contas publicas é sustentável vai naturalmente requerer muitos sacrifícios, mas com diferentes dimensões entre os diferentes países. No caso de Espanha e Portugal, mais que a solvência do sector publico a curto prazo, a questão que se coloca é a sua capacidade de conseguirem desencadear uma nova fase de expansão económica.Os níveis de défice alcançados são de facto insustentáveis, pois implicaram um crescimento explosivo da dívida pública. Isto fez com que os países com maior probabilidade de serem apanhados pela avalanche Grega na União Europeia (Portugal, Espanha, Irlanda e Itália) se apressem agora a ajustar as orientações das suas políticas fiscais, penalizando assim os contribuintes de uma forma mais dura, que se o tivessem feito ao longo dos dois anos anteriores. Esta antecipação, para além de pouco popular, deveria ter sido tomada, uma vez que não me parece que alguém tivesse dúvida de que se chegaria ao nível de dívida actual. Realmente a Grécia é o país do grupo vulgarmente designado por PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) com a situação mais débil. Nos últimos dias de Abril teve de solicitar a activação do mecanismo de ajuda financeira montado pela União Europeia e pelo FMI. Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, por “simpatia” também sofreram uma forte penalização nos mercados financeiros, facto empolado pelos cortes nas suas classificações pelas empresas de rating.O ponto de semelhança entre estes quatro países é o fraco crescimento interno nos últimos anos, que conjugado com as debilidades resultantes do endividamento actual, dificultam o crescimento da procura interna e levam a uma evolução desfavorável da competitividade, o que resulta num obstáculo sério para a evolução da procura externa.No entanto não devemos ser levados a pensar que o que aconteceu à Grécia também irá acontecer aos restantes países mais vulneráveis ao risco de contágio. Em primeiro lugar porque temos diferenças importantes em termos de solvência do sector publico. Se considerarmos como elemento fundamental para a estabilização a contenção da divida publica, vemos que o potencial económico, as taxas de juro reais e a capacidade para gerar saldos primários positivos (ou seja, o saldo orçamental expurgado das despesas com juros da dívida), bem como o volume inicial de dívida são muito diferentes de país para país.Por outro lado as duras (mas necessárias) condições que se exigiram à Grécia para receber a ajuda financeira (cortes nos salários na função publica, aumentos de impostos, redução do tamanho das administrações locais, privatizações, etc), representam medidas de último recurso pelo que não espero que o mesmo aconteça nos restantes países.Para além disso, todos estes desenvolvimentos estão a provocar programas de ajuste fiscal nos países economicamente mais fragilizados, que esperemos que sejam capazes de evitar o pior. Estes programas parecem estar a ser bem aceites pelo BCE e pelas agencias de rating. Uma prova disto é que apesar de terem baixado o “rating” de Portugal e Espanha, fizeram-no com base num ajuste de crescimento económico e não questionando a estratégia de política fiscal (que temos de reconhecer que enfrentam grandes dificuldades e que podem sofrer de falta de antecipação). Adicionalmente também foram levantadas questões a nível estrutural que põem em causa a capacidade de crescimento destes países. A falta de flexibilidade do mercado laboral, a falta de competitividade e problemas do sector financeiro, são as principais fragilidades apontadas, que realmente representam uma grande pedra no sapato de quem precisa desesperadamente de começar a correr. E é esta questão que está a provocar grande instabilidade e medo nos mercados financeiros. A hipótese do insucesso da aplicação das medidas de contenção orçamental e das necessárias alterações das políticas fiscais, não pode ser posta de parte e está a incrementar a falta de confiança nessas economias.Luís Pedro Branco