Terá representado algum benefício para o país, nestes tempos difíceis que atravessamos, a apresentação de uma moção de censura ao governo que, a ser aprovada, nos colocaria perante um cenário de crise política, eleições antecipadas e formação de um novo executivo (eventualmente também sem maioria absoluta), com a consequente paralisação administrativa do Estado por longos e penosos meses?

Terá feito sentido neste momento e depois dos sérios avisos que os mercados financeiros e a União Europeia deixaram a Portugal, avançar para um questionável projecto de TGV, que agravará a já muito débil situação das finanças públicas nacionais e numa altura em que inúmeras dúvidas se levantam quanto à rentabilidade deste investimento num mercado de dimensões reduzidas como é o nosso? E será assim tão prioritário quando continua por esclarecer se os vizinhos espanhóis - que já anunciaram o congelamento por um ano dos projectos ferroviários de alta velocidade e a reavaliação dos troços "caso a caso" - darão continuidade a esta linha ou, pelo menos, se cumprirão os mesmos "timings" que nós?

E terá sido coerente protestar contra os aumentos de impostos e as medidas de austeridade anunciadas pelo governo e, em simultâneo, votar favoravelmente este projecto que terá um impacto colossal no Orçamento de Estado e que, consequentemente, acabará por recair sobre os ombros dos contribuintes?

Facilmente o leitor concluirá que não só nenhuma das questões anteriores farão qualquer sentido, como achará que dificilmente haverá alguém capaz de, na actual conjuntura, compatibilizar a defesa de todas elas. Mas, se relativamente ao primeiro ponto estamos plenamente de acordo - pois, de facto, nenhumas das circunstâncias descritas revelam bom senso - já quanto ao segundo aspecto está o caro leitor totalmente enganado. Isto porque em Portugal existem duas excentricidades politicas capazes de encarnar qualquer papel: o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda.

Estes dois partidos, hoje os maiores expoentes de uma esquerda esquartejada, estagnada em termos ideológicos e esvaziada de valores e princípios desde a Queda do Muro de Berlim (já lá vão quase vinte e um anos!), deram nos últimos tempos uma prova cabal do papel estéril que actualmente desempenham na vida politica portuguesa. E embora adoptem discursos diferentes - o do PCP, formatado de acordo com a velha cartilha marxista, mais estratégico, rigoroso e recheado de dogmas, já o do BE mais dialéctico, muitas vezes demagógico e aleatório, numa lógica quase anarca - a verdade é que, longe do poder e sem grandes perspectivas de lá chegar, ambos orientam a sua actuação perseguindo o mesmo objectivo: a sobrevivência, a qualquer custo.

Assim, para o PCP e BE é tão natural organizar manifestações e vir para as ruas com uma t-shirt do Che Guevara empunhando um cartaz com palavras de ordem e proferindo alguns impropérios em voz alta contra a subida da carga fiscal e perda de poder de compra, como no dia seguinte, sem qualquer pejo, ajudar a aprovar um projecto que, com grande probabilidade, irá agravar a situação financeira dos portugueses.

Este contraste de comportamentos e incoerência de propósitos é, porém, sempre defendida por estas hostes com jactância e num tom de superioridade moral, uma atitude intelectualmente desonesta que só contribui para o acentuar do descrédito e desprestígio da classe politica.

Como escreveu Zita Seabra, "nada melhor quando se sai de um partido comunista, por dissidência ou por desistência, do que encontrar a coerência do bem da mensagem (...)".

Luís Nuno Olim