António Ferreira Os mercados financeiros exigem medidas espartanas para continuarmos a estar em condições de receber o influxo de capitais estrangeiros. Esta dependência poderá ainda causar sintomas de privação aguda. Se, para descermos apenas 1% no valor do défice, é preciso cortar a eito salários, pensões e subsídios de subsistência, imaginem o que não será preciso para alcançarmos valores aceitáveis de endividamento? O Plano de Estabilidade e Crescimento baseia-se na premissa de um crescimento económico robusto, provavelmente empurrado por exportações exuberantes. A questão impõe-se: exportar para aonde? Para que mercados? E, exportar o quê? Com um tecido produtivo dilacerado por impostos, um consumo interno asfixiado pelos mesmos motivos, como poderemos crescer? Estas medidas de austeridade parecem demasiado duras, mas eu temo que pequem por tardias, e pior, pequem por serem demasiado brandas. È ainda uma doce austeridade. Vejo o caso da Irlanda que cortou 20% dos salários da função pública já há alguns meses, vejo o corte radical nos vencimentos dos gregos e confesso que não percebo o motivo de não pegarmos o touro pelos cornos de uma vez por todas. Entretanto o país afunda-se e a banda continua a tocar. Incompreensível é a posição da esquerda - que eu recuso-me de apelidar de radical -, mas que me parece absolutamente irresponsável, deixando a batata quente de governar para os partidos mais a direita. Se tivesses-mos partidos que soubessem governar com a realidade e a verdade, e não com preceitos ideológicos, delírios igualitários, ou questiúnculas de ocasião, toda esta situação seria evitável. A começar pela forma de gerir dinheiros públicos. A questão fundamental do défice não é a sua dimensão, isto é, não é quanto gastamos, mas como gastamos. Se ao invés de obras megalómanas ouvíssemos empresários como o Dr. Belmiro de Azevedo, ou políticos como Dr. Bagão Félix provavelmen-te já estávamos num ponto de infle-xão. Se não houver uma mudança profunda, o nosso futuro poderá ser inclementemente sombrio.