Filipa Nóbrega Foi com muita pena que li a demissão do Director de Informação do Diário. Sem dúvida que levou o termo 'qualidade jornalística' a um novo nível, até porque de facto o DN já tinha esta qualidade. Apenas aumentou a fasquia. Gosto do estilo de jornalismo objectivo, sem preferências partidárias ou outras que tais.Mas também sei que é difícil fazer jornalismo nesta terrinha onde toda a gente está de tal maneira formatada que tudo o resto é motivo de discussão. Em relação aos velhotes, entendo. Mas em relação aos jovens, ver gente sem trabalho a dizer como este governo é bestial e maravilhoso leva-me a pensar se não teremos daqui a uns anos uma geração à medida do chefe: fundamentalista, que só vê o próprio umbigo, cega e com a mania que só ele tem razão. Assusta-me ver gaiatos a espumar pela boca como cães com raiva, apenas porque fizemos um comentário que não considera ser o adequado do seu dono. Assusta-me porque já o vi, porque estamos a falar de jovens. Penso também com alguma ironia que o medo do UI é que a nova geração não seja tão fanaticamente comunista, tal como os jovens das repúblicas soviéticas eram em relação aos seus chefes.Um estudante de política sabe que o mais importante numa ditadura é o culto ao chefe. Por isso toca de doutrinar esta cambada de ignorantes, de pacóvios, de idiotas que para aqui andam. Nunca me esquece um caso que presenciei e que me fez sorrir: um grupo de funcionários do Estado, numa Secretaria, pareciam animais furiosos (sim, é verdade), a ver quem é que ia ficar com o DN cuidadosamente traficado para dentro de tão douta instituição para o ler, enquanto os outros jornalinhos e bocas pequenas ficavam num canto. A Instituição DN, o cunho do seu Director criavam estas situações perigosíssimas para certos grupos de poder. Toda a gente sabe que o sonho de certo director de certo jornal é ser director do Diário situado em frente à sua casa: mas sabe que nunca sequer vai ser indicado para tal cargo, porque na casa da frente quer-se jornalismo sério e não de 'boca pequena'. No jornal da frente ninguém tem medo de dizer o que pensa, mas são humanos, e têm medo de poder perder o seu trabalho devido a manobras 'perfeitamente legais num país democrático'. Sem dúvida terei saudades das páginas domingueiras do DN, dos comentários mordazes, objectivos e concretos como o do fim-de-semana passado que deve ter deixado afligido certos sectores que não queriam que a génese do JM fosse revelada, nem tão pouco os seus objectivos. O DN sabe-a. Está cá há tanto tempo, e tenho muita esperança que, apesar dos constrangimentos e tentativas de o calar, possa conseguir aguentar o barco nesta fase tão complicada da sua vida. É assim que se vê a fibra das pessoas e não só o Sr. Luís Calisto como toda a redacção do DN merecem uma justa homenagem. É que ouvir 'papaias' todos os dias custa.