É muito mau quando se perde o crédito a quem está por cima. A Diocese do Funchal achou por bem servir-se da imagem peregrina de Fátima, para reavivar o catolicismo madeirense. Mas não esqueceu, ao passar por Machico, de puxar pelas orelhas do padre José Martins Júnior e do povo da Ribeira Seca. Recusou visitar o seu espaço de reunião, estudo e oração: a igreja e o adro. Quer dizer: a Diocese mantêm-se em exercício inquisitorial, não reconhece que só tem em mãos, como objecto de acusação e motivo da suspensão 'a divinis', actos de cidadania. E continua a sacrificar um sacerdote e um povo.Olhemos para este imbróglio de um modo mais profundo.O culto pelas imagens aproximou muito a fé cristã da idolatria do paganismo. 'A imagem se tornou também ela objecto de veneração; é considerada como dotada de poder próprio de intercessão, senão de propriedades miraculosas.' (Nova História da Igreja. Tradução de Dom frei Paulo Evaristo Arns, 2 edição, Iº tomo, pag.403. Vozes, Petrópoles). A fé da Igreja colocou-se na fronteira da violação do 1º Mandamento do Decálogo.Depois que os papas aceitaram este culto dúbio e perigoso, a Igreja transformou-se numa grande fonte de promoções, santuários e poderes, copiando muito do que havia da religiosidade do Império Romano. As hierarquias desenvolveram-se e, à volta das estátuas, ganharam muita importância como autoridades. Por outro lado Cristo foi sendo silenciado, metido no sacrário com a chave para o lado de fora e, com Ele, sua mensagem. Fala-se dela simplesmente como texto.Assim compreende-se a razão de ter havido legislação iníqua, da qual ainda existem grandes restos no Código de Direito Canónico. Estes poderes, instalados no catolicismo, são parecidos a outros poderes corrosivos, instalados nas governações públicas. É por isso que, tanto de um lado como do outro, se toca tantas vezes a mesma música.Os historiadores dizem que a Igreja do 2º milénio tornou-se basicamente numa instituição de clérigos, subordinando os leigos à trilogia: 'pagar - rezar - obedecer'.Esta 'invernia' mental a que os fieis têm andado sujeitos, até leva a pensar que 'estes feitores'( Luc. 16, 1-12) têm o poder de condicionar Deus na sua acção.O que aconteceu entre nós foi a Diocese servir-se de uma estátua morta, que não tem voz e está sujeita a todos os manuseios de quem a conduz, e exercer os tais poderes iníquos instalados, em busca de uma boa imagem e grandeza da sua autoridade. Isto não é o Cristianismo. É o Catolicismo desenvolvido no tempo histórico da Idade Média e Idade Moderna, na parte que continua de pé.Que será então o Cristianismo? O nº 1 do Catecismo da Igreja Católica diz que Deus criou livremente as pessoas para as tornar participantes da 'sua vida bem-aventurada'.É o baptismo que nos 'incorpora'na família dos filhos de Deus, uma aliança vivencial. A partir do baptismo a pessoa faz parte da família divina e começa o diálogo entre filho e Pai, entre irmão e irmãos, sendo Jesus o primogénito da Família. É uma vida viva na terra em direcção ao eterno. No cristianismo está incluído todo o labor e diálogo da vida: o amor, a fraternidade, a liberdade, o desenvolvimento, a partilha, o ambiente, a verdade, a justiça, a paz, a solidariedade.São três os sacramentos que nos 'incorporam' directamente na família de Deus: o baptismo, que faz-nos nascer, o crisma, que nos dá a categoria de actuantes, cristãos que crescem e fazem-se adultos responsáveis, e a ordem, o sacramento de celebrar, na palavra e na eucaristia, o pão, o fruto do trabalho do homem, e o vinho, 'o cálice do Meu Sangue', (Mar.16,24). Estes sacramentos imprimem um carácter inalienável em quem os recebe, carácter divino, livre da autoridade humana, e que é conduzido pelo Espírito Santo, o sopro divino que ilumina, esclarece e fortifica.O devocionismo das estátuas, as dignidades dos chefes, os cortejos e tantas ocupações sem sucesso, que proliferam na Igreja absorvendo o tempo dos fiéis, funcionam como adornos, produzindo boa imagem, mas são, ao mesmo tempo, verdadeiras corriolas, que paralisam na infantilidade a filiação divina de cada cristão.Um conto.Uma fervorosa católica terminou o seu tempo na terra e encontrou-se com Cristo. Surgiu o diálogo:_ Então chegaste…Não me recordo bem de qualquer conversa contigo, de alguma dificuldade ou tarefa tua. Apresenta-te._ Sou… Vivi… Sempre fui muito católica, muito participativa nas actividades e devoções. Não havia Nossa Senhora a quem não rezasse, etc, etc._ Ah, pertenceste à creche devocional da Igreja. Vais para o infantário._ E que é isso?_ É um lugar parecido ao antigo limbo que a Igreja pregava._ E as minhas missas, terços, ofertas e tarefas devocionais?_ Tu sabes que um bebé usa sempre fraldas para estar bem e apresentável. Depois de usadas… Nas devoções da Igreja instalou-se esse mesmo proceder.Deste mundo religioso a juventude está toda a fugir, embora se digam católicos.Felizmente que a Igreja é mais que devoções. A cidadania cristã cresce, ganha voz e torna-se cada vez mais do domínio público que o corpo verdadeiro da Igreja é o das vítimas, aqueles que acompanham Cristo na resistência, embora isso seja calvário.Muitos movimentos cristãos já actuam em linhas paralelas à autoridade religiosa. Cito um com muito nome e acção, 'Nós somos Igreja'. Transporta em mão os grandes temas actuais e reclama para eles as justas respostas.Entre muitos textos que circulam, existe uma carta do teólogo Hans Kung, dirigida aos bispos de todo o mundo, descrevendo a situação dramática da Igreja e propondo a exigência de um novo concílio e uma outra do jesuíta P. Henri Boulad, com o título 'A Igreja no Abismo', dirigida ao papa Bento XVI. Há que estar vivo e não calado, para guardar acesa a Esperança e continuar o caminho.O padre da Diocese, Mário Tavares Figueira.Mário Tavares Figueira