Há quem coloque à frente das suas prioridades, não a correcção dos erros existentes na ocupação do território, mas a reconstrução do seu próprio quintal no leito da ribeira Um escorpião, encurralado entre a margem de um rio e um incêndio que se aproximava, pediu a um sapo que o levasse para o outro lado. O sapo recusou, receoso que a meio da viagem o escorpião lhe ferrasse o aguilhão provocando-lhe a morte. O escorpião argumentou que não tinha nenhum interesse nisso pois se o ferrasse não se conseguiria salvar, nem do incêndio, que se aproximava, nem de se afogar no meio do rio. O sapo achou o argumento lógico e confiou no escorpião. Abeirou-se da margem e deixou-o subir para as suas costas. Começou a nadar em direcção à outra margem mas, quando chegou a meio do rio, o escorpião não se conseguiu conter. Espetou o aguilhão no sapo e descarregou nele o seu veneno mortífero. Enquanto sentia o efeito do veneno a paralisar-lhe os movimentos, e antes de se afundar no rio, ainda conseguiu perguntar: «Porque que me matas se sabes que para ti é um suicídio?» Ao que o escorpião respondeu: «É a minha natureza, nada posso contra ela.»Esta é uma fábula que nos faz pensar sobre se devemos acreditar na mudança de comportamento e atitude de quem, desde sempre, ameaçou os outros e a própria natureza com o seu aguilhão venenoso. Vem isto a propósito do processo de reconstrução da Madeira depois dos estragos do temporal de 20 de Fevereiro e é muito provável que venha a assentar que nem uma luva na nova relação institucional entre o governo da Madeira e o da República.Na hora da aflição, o presidente do governo regional desabafou dizendo estar «cansado de brincar à porrada com a natureza», parecendo disposto a respeitar os leitos das ribeiras e as zonas de risco para que a Madeira não tivesse de passar novamente pelas consequências que ainda sentimos na pele. No entanto, ao contrário do sapo, nem foi necessário chegar a meio da viagem para começarmos a sentir o veneno deste escorpião que não consegue contrariar a sua natureza. Em apenas dois meses, a natureza do escorpião ressurgiu no seu auge com a mesma estratégia, artificializar e ocupar os leitos das ribeiras.Nem podemos dizer que fomos enganados. Da mesma forma que o sapo deveria ter desconfiado que o escorpião, inevitavelmente, o iria ferrar, nem que fosse quando chegasse à outra margem e se sentisse a salvo, também nós já deveríamos antever que uma atitude de humildade para com a natureza nunca iria surgir deste governo, nem mesmo depois de algo tão grave como o que aconteceu a 20 de Fevereiro. Na verdade, a atitude de alguma disponibilidade para corrigir os erros cometidos só durou o tempo necessário para convencer o povo (o sapo da nossa fábula). A partir daí foi voltar ao mesmo, colocando as máquinas no terreno a canalizar as linhas de águas em direcção à nascente e criando, dessa forma, escorregas que irão lançar os materiais até às zonas mais baixas.Apesar das graves consequências das enxurradas, muitos continuam a acreditar que as muralhas nas ribeiras são a solução para o problema. Na verdade, essas muralhas, que em muitos locais estrangulam os leitos, favorecem a sua ocupação e aumentam a velocidade das águas e a sua força destruidora, foram um dos factores que contribuíram para agravar a dimensão da catástrofe.A culpa? A culpa não é só do escorpião. A culpa é também do sapo que sabendo da natureza do escorpião continua a acreditar nele. Por outro lado, também há quem coloque à frente das suas prioridades, não a correcção dos erros existentes na ocupação do território, mas, antes, a reconstrução do seu próprio quintal no leito da ribeira.Hélder Spínola

Há quem coloque à frente das suas prioridades, não a correcção dos erros existentes na ocupação do território, mas a reconstrução do seu próprio quintal no leito da ribeira

Um escorpião, encurralado entre a margem de um rio e um incêndio que se aproximava, pediu a um sapo que o levasse para o outro lado. O sapo recusou, receoso que a meio da viagem o escorpião lhe ferrasse o aguilhão provocando-lhe a morte. O escorpião argumentou que não tinha nenhum interesse nisso pois se o ferrasse não se conseguiria salvar, nem do incêndio, que se aproximava, nem de se afogar no meio do rio. O sapo achou o argumento lógico e confiou no escorpião. Abeirou-se da margem e deixou-o subir para as suas costas. Começou a nadar em direcção à outra margem mas, quando chegou a meio do rio, o escorpião não se conseguiu conter. Espetou o aguilhão no sapo e descarregou nele o seu veneno mortífero. Enquanto sentia o efeito do veneno a paralisar-lhe os movimentos, e antes de se afundar no rio, ainda conseguiu perguntar: «Porque que me matas se sabes que para ti é um suicídio?» Ao que o escorpião respondeu: «É a minha natureza, nada posso contra ela.»Esta é uma fábula que nos faz pensar sobre se devemos acreditar na mudança de comportamento e atitude de quem, desde sempre, ameaçou os outros e a própria natureza com o seu aguilhão venenoso. Vem isto a propósito do processo de reconstrução da Madeira depois dos estragos do temporal de 20 de Fevereiro e é muito provável que venha a assentar que nem uma luva na nova relação institucional entre o governo da Madeira e o da República.Na hora da aflição, o presidente do governo regional desabafou dizendo estar «cansado de brincar à porrada com a natureza», parecendo disposto a respeitar os leitos das ribeiras e as zonas de risco para que a Madeira não tivesse de passar novamente pelas consequências que ainda sentimos na pele. No entanto, ao contrário do sapo, nem foi necessário chegar a meio da viagem para começarmos a sentir o veneno deste escorpião que não consegue contrariar a sua natureza. Em apenas dois meses, a natureza do escorpião ressurgiu no seu auge com a mesma estratégia, artificializar e ocupar os leitos das ribeiras.Nem podemos dizer que fomos enganados. Da mesma forma que o sapo deveria ter desconfiado que o escorpião, inevitavelmente, o iria ferrar, nem que fosse quando chegasse à outra margem e se sentisse a salvo, também nós já deveríamos antever que uma atitude de humildade para com a natureza nunca iria surgir deste governo, nem mesmo depois de algo tão grave como o que aconteceu a 20 de Fevereiro. Na verdade, a atitude de alguma disponibilidade para corrigir os erros cometidos só durou o tempo necessário para convencer o povo (o sapo da nossa fábula). A partir daí foi voltar ao mesmo, colocando as máquinas no terreno a canalizar as linhas de águas em direcção à nascente e criando, dessa forma, escorregas que irão lançar os materiais até às zonas mais baixas.Apesar das graves consequências das enxurradas, muitos continuam a acreditar que as muralhas nas ribeiras são a solução para o problema. Na verdade, essas muralhas, que em muitos locais estrangulam os leitos, favorecem a sua ocupação e aumentam a velocidade das águas e a sua força destruidora, foram um dos factores que contribuíram para agravar a dimensão da catástrofe.A culpa? A culpa não é só do escorpião. A culpa é também do sapo que sabendo da natureza do escorpião continua a acreditar nele. Por outro lado, também há quem coloque à frente das suas prioridades, não a correcção dos erros existentes na ocupação do território, mas, antes, a reconstrução do seu próprio quintal no leito da ribeira.Hélder Spínola