Recentemente senti necessidade de regressar ao manual que qualquer construtivista não dispensa. Ao revisitar "A construção social da realidade" (Peter Berger e Thomas Luckman) relembrei como o quotidiano é apreendido num contínuo de tipificações, em que a estrutura social é o somatório dessas tipificações e dos padrões de interacção entre sujeitos. Nada mais precioso para compreender como a situação económica actual, mais do que uma fatalidade externa (pressão dos mercados financeiros, por exemplo) é fundamentalmente o resultado das nossas opções de vida, tendo por pano de fundo uma fraca produtividade, diluída num consumo dependente de facilidades de crédito concedidas desde o exterior. É verdade que temos assistido nos media ao escalpelizar de responsabilidades pelo estado em que se encontra mergulhado o país. Mas a sensação com que se fica é que o julgamento em curso é absolutamente inútil, diga-se de passagem. Trata-se apenas de um reflexo tão característico e decorrente de uma determinada tradição de conceber a vida e lidar com os problemas. Mais do que acções alternativas e sustentáveis para enfrentá-los, procuram-se culpados disponíveis ou de circunstância. Só que essas tiradas, baseadas na localização de culpas, ultrapassada que está a fase da negação, permanecem atadas aos vícios típicos das abordagens ditas reificantes e, por conseguinte, centradas no escrutínio simbólico e inconsequente das acções institucionalizadas, que entretanto foram-se tornando em hábitos. Portanto, nada de novo ou de consequente, apenas consumo retórico e físico de recursos em tempos de escassez dos mesmos. Na prática, após o esgotamento da negação, o refúgio útil que se segue é o da reificação, que mais não faz do que aliviar psicossociologicamente os indivíduos das suas responsabilidades… mas sempre no âmbito do modelo vigente. Como referem Berger e Luckman, "a reificação é a percepção dos produtos da actividade humana como se fossem algo diferentes de produtos humanos (…) Isto é, o homem é, como paradoxo, capaz de produzir uma realidade que o nega". Dito isto, discutir e tentar encontrar os responsáveis pela crise constitui uma abordagem para manter intacta a situação de contestação, uma vez que os vários sujeitos participantes na acção colocam-se -por intermédio deste estratagema de construção da realidade- à margem de qualquer acção verdadeiramente alternativa. Então talvez seja mesmo necessário considerar alguma inflexão mental e comportamental. Ultrapassada a negação, rejeite-se, pois, também a reificação. Perguntarão muitos, mas como? Optando por critérios de rigor ou exigência em relação à acção, únicas modalidades que face a um contexto tão abandalhado poderão devolver-nos alguma esperança. Incomodados, muitos questionarão: será difícil? Seguramente, mas a opção pela exigência pelo menos comporta uma tremenda vantagem. Uma cultura de exigência pode ser solitária e basear-se apenas no compromisso individual. Depende só de cada um de nós. Por isso, da próxima vez, em vez de transferir ou procurar a responsabilidade no exterior, pratique antes a exigência internamente. Posteriormente, exija-a aos outros e cultive-a. É sempre possível fazer uma bola de neve, desde que estejamos efectivamente disponíveis para usar as mãos.
Ricardo Fabrício