“Forever young, i want to be forever young”. A canção que celebrizou a banda alemã Alphaville nos anos 80, era um hino à eterna juventude, inspirando-se na rebeldia, na libertinagem, na teimosa ousadia. Hoje, esse mito só faz mais sentido trocando o verbo ‘querer’ pelo ‘ter de ser’. Se antes, adiar a entrada na idade adulta era uma opção individual, hoje em dia é um imperativo quase geracional: muitos estão condenados a ser eternos adolescentes. Nos EUA, o conceito já dá pelo nome de ‘miúdos boomerang’. Vão e voltam à casa dos pais. Por cá, pode-se dizer que são uma espécie de filhos pródigos dos tempos modernos. Lançam-se na aventura comum de garantir a sua própria subsistência mas são forçados a regressar às origens, ao berço onde cresceram.

Vários factores explicam este penoso voo rumo à vida adulta - culturais, educacionais, conjunturais. A crise financeira é a mais evidente. Não está isento de responsabilidade o Estado, devedor e descredibilizado junto da banca, que fez disparar as condições de negociação dos cidadãos com menor capacidade de oferecer garantias às instituições bancárias para beneficiarem de crédito para comprar ou arrendar casa. Com ‘spreads’ acima das taxas de juro e o euribor a ameaçar triplicar a qualquer momento, “não há condições...”. Isto porque, a oportunidade do trabalho traz muitas vezes o rótulo da precariedade: sem vínvulo, sem carreira contributiva, a recibos verdes. Os jovens são a perfeita mão-de-obra reciclável tão apetecível pelas empresas num momento conturbado, de instabilidade, de medidas de austeridade. É verdade que muitos dos jovens dos 18 aos 30 anos cresceram habituados a ter tudo no imediato e não sabem esperar. Mas, não podemos esquecer que é sobre os ‘homens de amanhã’ que pende a factura do envelhecimento que o país é incapaz de travar. O que eles questionam é se o país será capaz de lhes retribuir futuramente?

Outra parte deste já significativo regresso dos recém-formados à casa dos pais explica-se pelo divórcio entre os núcleos de formação e o mercado de trabalho. Bem que o governo poderia colocar a análise e a investigação ao serviço de um plano de emprego com motivações centradas na produtividade e na avaliação da capacidade e do potencial ‘per capita’. Em vez disso, os indicadores servem o joguete político das estatísticas, de que são exemplo as hilariantes conclusões de Brazão de Castro. O governante que descobre sempre algo positivo na pior taxa de desemprego que a nossa frágil democracia alguma vez conheceu.

É preciso coragem para desmontar esta ‘máquina’ de vender ilusões. Se antes tínhamos pólos universitários que vendiam graduações com títulos de engenheiros e de doutores que mais não eram do que passaportes para a pretensão‘job for the boys’, agora abundam as licenciaturas de utilidade duvidosa, os mestrados para encher currículos, as pós-graduações sem correspondência no mercado das oportunidades de trabalho. Salvo algumas excepções, temos‘toys for the boys’...

As escolas têm procurado apoiar os jovens na descoberta das vocações mas, perante a rarefação do emprego, o desconhecimento rigoroso da realidade laboral nas diversas áreas de estudo (sobretudo nos novos cursos superiores pretensamente promissores), ninguém é capaz de responder ao cerne da questão: que contributo posso eu dar ao meu país? Onde é que posso ser útil? E os pais, de olhar consternado, sem resposta para o manancial de dúvidas e procurando motivar esta geração boomerang mesmo sentindo o aperto no pescoço – são os cortes nos abonos e nos apoios à acção social escolar, os atrasos de vários meses das bolsas de estudo, os avisos de cobrança das rendas das residências universitárias que não param de chegar e as passagens aéras ao preço de turista de época alta.

Solução? Emigrar! É por isso que eu não censuro as palavras do vice-presidente do Governo Regional quando - numa conferência sobre empreendedorismo e falando perante uma plateia repleta de jovens - advertiu que a Madeira não consegue manter o nível de oportunidades de emprego que vinha oferecendo até então. "É bom que seja uma prioridade da nossa geração o cuidado de explicar aos nossos filhos que a coisa vai ser mais difícil, que vai ser mais competitiva, que vão ter se calhar de ir para o estrangeiro”. É certo que a frontalidade e a verdade são virtudes num político, mas isso não o iliba da responsabilidade de criar condições para impedir a partida massiva dos jovens.

A crise na Irlanda provocou a debandada de mais de 150 mil jovens só este ano. Deus nos livre disso acontecer. No entanto, por cá pagamos mal aos mais instruídos, despejamos quem “perturba” e pede-se “que se mude” a “quem está mal”. Depois como se explica o paradoxo de sermos um país sem médicos com jovens médicos a emigrar? Erro crasso num país que congela a nacionalidade, que é hostil com os imigrantes, que realiza um divórcio em cada três casamentos, que nunca viu nascer tão poucos bebés, que vê a esperança média de vida aumentar e que abre cordões à bolsa para pagar pensões, reformas e aposentações... Assim teremos uma geração boomerang que voa para longe e já não volta.