Sabemos que o custo do combate às alterações climáticas corresponde a apenas cerca de 1% do PIB mundial. Sabemos também, que os custos resultantes de nada fazer podem ser cinco a seis vezes superiores. Sabemos ainda que a transição para uma economia verde, de baixo carbono, sem a qual não haverá sucesso no combate às alterações climáticas, implica uma verdadeira revolução industrial que constitui uma oportunidade económica imperdível para fortalecer a economia e acelerar a saída da crise, gerando milhões de novos postos de trabalho. Mas apesar de sabermos tudo isto, não deixa de ser paradoxal constatar que a intensidade e o ritmo dos esforços para travar o processo de alteração climática está muito longe de corresponder ao necessário para conter o aquecimento global duma forma significativa (até 2 graus Celsius até ao final do século). De pouco valem os objectivos ambiciosos da União Europeia (UE) expressos na política dos quatro vintes (até 2020: reduzir em 20% as emissões de dióxido de carbono; elevar para 20% o contributo das energias renováveis; poupar até 20% a energia consumida através de soluções de eficiência energética) se igual esforço não for feito, quer pelas restantes economias desenvolvidas, quer pelas economias emergentes. O fracasso da Cimeira de Copenhaga e as baixíssimas expectativas que rodeiam a Cimeira de Cancun, que actualmente decorre, são bem reveladoras. Será necessário que umas cheias com a dimensão das ocorridas no Paquistão este ano (20 milhões de pessoas afectadas, 2000 mortes, 5 milhões de empregos destruídos) ou outro fenómeno climático extremo tenha lugar numa economia desenvolvida ou emergente, para que avanços significativos se produzam nas Cimeiras do Clima???... Não admira, por isso, que Agências Internacionais Especializadas, bem como reputados cientistas nos venham dizer que a manter-se o actual ritmo lento de redução de emissões de CO2 a probabilidade do aquecimento global (principal consequência da alteração do clima) ser superior a 2 graus Celsius até ao final do século é altíssima. Estima-se inclusivé que possa atingir os 3 graus e até mesmo superar este valor! Degelo, desertificação, Verões cada vez mais quentes, chuvas mais intensas e frequentes, aumento do nível do mar... serão fenómenos que se intensificarão inevitavelmente e com os quais teremos infelizmente de conviver e nos adaptar. E nós, Região Autónoma da Madeira, que neste ano sofremos na carne a instabilidade climática que tudo aponta tenha tido por causa o processo de alteração do clima, como nos devemos posicionar perante esta situação? Em primeiro lugar, com o apoio da UE, há que decididamente intensificar e acelerar os esforços de transição da economia regional para uma economia verde, amiga do ambiente, produtora de baixas emissões de CO2. Desta forma induziremos dinamismo na economia gerador de riqueza e trabalho, crucial também para combater a actual crise e reforçarmos a imagem de paraíso verde do destino turístico Madeira. Aliás, as Regiões, as autarquias, cada um de nós, cidadãos e empresas, vamos todos que ter que contribuir duma forma mais activa para travar as alterações climáticas. É uma tarefa que, tal como a ONU vem reafirmando, não pode ficar quase exclusivamente na iniciativa dos Estados. Em segundo lugar, importa realizar um trabalho de adaptação ao impacto das alterações climáticas. Urge, por isso, avaliar a vulnerabilidade da Região às mudanças provocadas pelo aquecimento global, nomeadamente às chuvas intensas e mais frequentes, às vagas de calor e aos Verões cada vez mais quentes, à subida do nível do mar (uma subida de meio metro é inevitável até ao final do século, sendo provável que possa atingir um metro e não está descartado o cenário de dois metros ou mais). A avaliação de vulnerabilidade da Região a estas ameaças é imprescendível para que possamos prever acções de adaptação e atenuação do risco decorrente. Tal como noutras situações, se não podemos eliminar o risco, impõe-se ao menos tudo fazer para o atenuar e assim criarmos um sentimento de maior segurança na comunidade.

Sérgio Marques