Ute Lemper, intérprete brilhante do repertório alemão de entre-guerras, estará em Lisboa nos dias 14 e 16 de Janeiro para acompanhar a Orquestra Gulbenkian, sob a direcção do Maestro Lawrence Foster, num programa onde se combinam as canções do popular cabaret alemão da 1ª metade do séc. XX com as composições dedicadas a dois clássicos da canção francesa, Jacques Brel e Édith Piaf. A leitura deste programa fez-me reflectir, novamente, sobre o tema segmentação dos produtos culturais e a necessidade urgente de introduzir estas lógicas na Madeira. Refiro-me ao imperativo de requalificação de espaços para acolhimento de produções e residências artísticas diferenciadas. O Funchal precisa urgentemente de mais palcos, pensados para os espectáculos que deseja promover como Cidade, sejam eles recitais, performances ou instalações. Enquanto alguém que gosta do Funchal, entendo que não se pode nem deve continuar a fazer da Sala de Visitas da Cidade (Teatro Municipal Baltazar Dias) o local onde tudo acontece e nada permanece. As cidades têm os seus "Teatros Nacionais" mas também têm antigos quartéis, matadouros, hotéis, conventos e outros espaços desactivados e improváveis, onde as artes de palco ganham vida, com dignidade e identidade próprias. E aqui volto ao tema de Ute Lemper, o cabaret, um universo riquíssimo do ponto de vista artístico e político, repleto de bom gosto e saber. Um universo onde se cruzam múltiplas áreas artísticas partindo da atracção entre os opostos, com ligações improváveis entre as linguagens musicais, plásticas e cénicas, como a ópera, o cabaret alemão e o fado. Estão a ver isto no Baltazar Dias? Eu não. Mas consigo imaginar esta cidade com turistas e residentes a pagar bilhete para recitais cénicos e espectáculos burlescos para os quais não só teríamos público como também temos artistas.

Natércia Xavier, Formadora