O Povo tem uma expressão mais genuína e directa: têm a chave da retrete e pensam que mandam no mundo. São uma espécie que não se extingue e atravessa ditaduras, democracias e todos os sistemas que a política conseguir inventar. Os pequenos poderes serão sempre isso mesmo: pequenos mas incómodos. São aqueles funcionários que fazem valer o peso de um carimbo, a velocidade com que se autentica uma fotocópia ou o rigor com que é fechada a porta de um serviço, público ou privado, independentemente do transtorno - muitas vezes dramático - que possa causar a quem ficou com um pé dentro e outro fora. São também esses que, por exemplo, decidem se alguém tem direito a acompanhante nas urgências de um hospital, ou se vai em frente sozinho, mesmo que abalado pelo facto de ter de recorrer a ajuda médica.

Como todos os pequenos poderes, não são escrutinados, nem assumem responsabilidades, apenas exercem a sua micro-competência com aquele olhar superior de quem não vale mais do que isso, mas faz questão de o mostrar. O 'chefe', essa entidade quase sempre odiada pelos subordinados, apanha com as culpas de tudo, mesmo da incompetência e mesquinhez daqueles que chefia.

No caso de um hospital, como foi noticiado, a lei diz que a regra é deixar entrar um acompanhante de cada doente, embora com as naturais excepções relacionadas com o bom funcionamento do serviço. Traduzindo, depende sempre da vontade e da disposição do momento de quem estiver de serviço. E a culpa de qualquer abuso, falta de educação e tratamento pouco digno, será de quem entregou a 'chave' sem ter em conta que entre os funcionários, por muito que o politicamente correcto mande dizer o contrário - são todos bons e excelentes para os seus sindicatos -, há quem não tenha perfil nem capacidade para exercer determinadas funções. Alguns não têm perfil para exercer nenhuma função.

Mais grave, mas não tão raro como era desejável, é quando o 'complexo da retrete' chega ao topo da hierarquia, quando o 'quero, posso e mando' é apenas isso, um exercício de poder sem lógica e fruto de um ego maior que as competências. Nesse caso, o livro de reclamações deve ser substituído por outro meio talvez mais eficaz: o voto.