Qual a fronteira entre a diferença e a indiferença, aquela que nos toca o quotidiano, que submete os sentimentos e reacções? O mundo real, globalizado ou não, está repleto de preconceitos: indiferença, violência, pobreza, violação dos direitos humanos, racismo e xenofobia, depressões. O que será mais prejudicial em sociedade: ser céptico e apenas viver o mundo real, ou ser fantasioso, utópico e daí não arredar pé? A violência não é um acaso numa sociedade que fervilha em desigualdades. Ela, a violência, não se justifica mas, fruto da desigualdade, acaba justificada. A falta de instrução, a falta de afectos, a ignorância, o desemprego, a corrupção, o compadrio e os acomodados são os maiores geradores de instabilidade social. Atitudes geradas na indiferença das famílias, dos políticos, da sociedade em geral. Sociedade acometida de esquizofrenia que impede a conquista do direito à diferença mas, por outro lado e ainda que faça confusão, agrava a indiferença. No ano internacional contra a Pobreza que agora findará, era difícil que os homens tivessem gerado novas leis que criminalizassem as expressões de ódio, a prepotência, o racismo, a xenofobia, a escravatura do século XXI, sobretudo sobre Crianças e Mulheres e essa diferença abissal de pobreza/riqueza que divide os hemisférios Norte e Sul. A luta contra a (in) diferença começa em cada indivíduo, nos seus sentimentos mais íntimos, nas suas relações, nos seus ímpetos, nos seus sonhos, na sua vontade. Poderá, então, fazer toda a mudança, poderá ser o anseio de Primavera que há-de explodir no coração do Homem. No último mês do ano talvez um balanço nos leve a novos projectos, novos relacionamentos, a uma nova alma como a pequena sereia do conto de Andersen. Dezembro é época de consumismo; somos atraídos pelos brilhos, as cores, as luzes, o que, momentaneamente, ofusca a gravidade da crise. É, também, a época em que mais se sofre com a Diferença e com a Indiferença. Dos que terminam com a vida por se recusarem a apodrecer de pé, julgados pelos moralistas ou pelos apóstolos habituados ao bafio, todos empedernidos ao perdão pela própria indiferença. Consiga o Homem uma trégua de Natal inocente a amenizar a agonia de um qualquer Cristo diferente.
Maria Teresa Góis