Que me interessa que a educação seja 'tendencialmente gratuita'? Continuamos a estudar como sub-desenvolvidos e só minorias, em esforços sobre-humanos, conseguirão ascender socialmente, porque não vão aprender sequer a escrever uma linha e a somar uma conta. A justiça não é acessível para quem ganha o ordenado médio português. As universidades existem para que as classes médias possam dizer 'o meu filho é doutor'. Os organismos de Estado pagam as suas dívidas a privados quando querem, penhoram as dívidas dos privados quando lhes apetece. As associações sindicais existem para perpetuar a ideia 'de pobres massas humildes', que têm direito a comer. Os sindicatos falam dos empresários como se fossem o mal no mundo. Os empresários médios têm a visão de um piolho e assistem de boca aberta ao mundo a lhes passar à frente. Os jornalistas sentam-se na redacção à espera de quem quer que seja que lhes telefone para mandar um recado transformado em notícia. O Governo do meu País não tem uma ideia estratégica e só apaga fogos. O Governo da minha Região não tem uma ideia estratégica. A oposição da minha Região não tem uma ideia que não seja uma reacção irritada ao que o Governo faz. O povo ou não vota, ou vota no mesmo governo velho. A crise? Vamos todos respirar devagarinho, para que precisemos de comer menos, para assim gastar menos, e num grande esforço nacional, nada aconteça. Na SIC, a pergunta de hoje é 'e se Sá Carneiro não tivesse morrido?'. Estava vivo! O meu país não é uma democracia porque ninguém aqui pode aspirar chegar ao máximo das suas capacidades.
Filipe Ferraz, Realizador