A UNICEF analisou 24 países e concluiu que Portugal é o que apresenta a maior taxa de pobreza infantil. Um problema que persiste mesmo após a atribuição de subsídios, o que significa que os apoios sociais são demasiado pequenos ou o esforço do Estado não será transversal. Infelizmente, estes resultados que nos colocam nos lugares cimeiros de tudo quanto seja problema são demasiado familiares e demasiado usuais. Somos sempre os primeiros dos últimos e os últimos onde deveríamos ser os primeiros. Andamos, neste aspecto, ao arrepio de tudo o que seja desenvolvimento humano e políticas sociais eficientes. Sofremos de uma congénita incapacidade de nos elevarmos acima da nossa pequenez, nomeadamente no que diz respeito a uma verdadeira acção capaz de fazer a diferença junto das franjas de população mais vulneráveis. Em Portugal, por tradição, os pobres ficam mais pobres, os desprotegidos, mais desprotegidos e o ciclo vicioso é, assim, um interminável repetir de situações que se arrastam sem que se note qualquer preocupação especial numa solução eficaz e que vá além da propaganda para consumo imediato, sempre que é necessário dar a imagem de que o país funciona. Fala-se de controlar o défice, de evitar a vinda do FMI, de ajudar as empresas, mas pouco ou nada se diz do país real. Do país da fome em silêncio, da pobreza envergonhada e de tantos outros pecados contra a dignidade de um povo. Ainda esta semana, creio que todos ficámos pasmados ao ouvir Fernando Ulrich, presidente do BPI, defender que a reforma mais importante de todas é liberalizar totalmente o despedimento individual, já que tudo está feito no despedimento colectivo. Ou seja, num país onde a taxa de desemprego ainda não parou de crescer, com os problemas sociais que lhe estão associados, realmente o que falta fazer é agilizar o despedimento individual. E, já agora, quem sabe permitir aos patrões abaterem os empregados sempre que estes ofereçam resistência ao despedimento. A ironia é exagerada, mas serve como caricatura de uma conjuntura onde impera a vontade de fazer boa figura no palco da economia europeia, mesmo que à custa de varrer para debaixo do tapete a incapacidade crónica para resolver os problemas que são a nossa imagem de marca há já demasiado tempo. Afinal, esta tendência para ocuparmos o primeiro lugar de tudo quanto seja o ‘top ten’ da miséria não é de hoje. É de sempre porque, na verdade, e apesar das revoluções, da democracia, da entrada triunfante na Europa e no euro apenas soubemos o que era a ilusão do desenvolvimento. O desenvolvimento verdadeiro, aquele que faz à diferença, que tem efeitos duradouros, ainda é uma miragem no deserto da nossa crónica incapacidade para atingirmos uma idade maior.