Há coisas que nunca mudam. Afirmar que os madeirenses se governam com o dinheiro dos contribuintes do continente, sem mais, é uma provocação que me causa alguma ira, numa primeira reacção. É mais ou menos como aquele turista acabadinho de chegar à ilha, sem nunca lá ter estado, garantir que num dia dá uma volta completa à Madeira. Confesso que já não é tão comum este tipo de conversa. Com uns aninhos a viver e a trabalhar deste lado, já fiz o favor de explicar aos menos esclarecidos que a minha terra não vive à custa de nenhum contribuinte em especial, como ninguém ousa dizer que Chaves, Coimbra ou Faro vivem à sombra do suor do açoriano, lisboeta ou madeirense. Da mesma forma que uma mentira repetida muitas vezes passa por verdadeira, a ideia de que a Madeira vive a expensas de Lisboa fez o seu percurso, tendo sido fomentada pelo poder regional sempre que era (é) necessário, ao sabor das conveniências, no calor do debate orçamental ou em momentos do perdão de dívida por parte do governo central, com alguma chantagem à mistura. Acirrar os ânimos contra "Lisboa", em determinados momentos, foi e ainda é um expediente utilizado. Rende alguns votos ao partido da "seta para cima". Quer se goste ou não, as regiões autónomas têm as suas especificidades e (ainda) não são independentes. Quanto ao dinheiro ser ou não mal aplicado no terreno, esses são outros «quinhentos». Se vai direitinho para os clubes de futebol ou para o Jornal da Madeira, também importa saber. Provavelmente a maior parte dos madeirenses que vivem na Região não sabe que destino os seus impostos levam nas mãos dos governantes. Estou certo que não aprovariam esse tipo de investimentos… Em época de carestia financeira, esse dinheirinho teria maior utilidade noutro género de empreitadas. Mas essas são contas de outro rosário. Dir-me-ão que é "wishful thinking" pensar de maneira diferente. Mas os desejos e os sonhos, por muito inalcançáveis que pareçam, são típicos da época natalícia em que oficialmente entrámos. Mesmo podendo ser acusado de demagogia - que importa? - seria bom se os governos soubessem aproveitar melhor o dinheiro proveniente do nosso trabalho. Mais ainda em cenário de contenção generalizada. A Madeira não foge ao contexto nacional e o quadro que se apresenta não é risonho. O desemprego aumenta a cada dia passa e as faixas de pobreza também. Há miséria nas ruas do Funchal, nos concelhos rurais, nas freguesias. Haverá decerto barracas, vidas miseráveis, fome. Para piorar as coisas, o turismo, a galinha dos ovos de ouro da economia do arquipélago, ressente-se da crise internacional e dos trágicos acontecimentos de Fevereiro último. A Madeira vista de cá ainda é a das paisagens bonitas, das flores e do bailinho. Quem a conhece sabe que esses cartazes escondem outras realidades, pintadas de cores mais esbatidas. Quando era um miúdo, os meus pais falaram-me da «Sopa do Cardoso», que matou a fome a muitos, na rua do Frigorífico. É bom ter essa lembrança presente, passados tantos anos. Com a falência do estado social à vista é urgente começarmos a reequacionar prioridades. Incomoda-me o argumento de que a Madeira vive da esmola do continente, mas não menos embaraçoso é saber pelas páginas dos jornais que o dinheiro dos portugueses - todos nós, afinal - se dissolve em subsídios, patrocínios e outras sinecuras, ficando as migalhas para os estratos sociais mais carenciados. Alguém me explica, como se eu fosse muito pequenino, como se canaliza mais verbas para o desporto (futebol) do que na promoção da marca Madeira? Bom Natal!
Roberto Ferreira, Consultor de Comunicação