A Festa, designação dada à quadra natalícia, era a época mais desejada na minha infância. O mês de Dezembro era de grande azáfama com os preparativos culinários: bolo de mel, broas, pão, bolos doces, cuscus e licores. Também o dia da matança do porco era especial para familiares e amigos, onde não faltavam bons petiscos, desde o sarapatel à carne assada, acompanhados de pão caseiro e vinho. Depois de "picado" o porco procedia-se à sua divisão, nunca esquecendo os que tinham ajudado na matança e também o senhor Vigário. Fazia-se a "carne de vinha-d'alhos" e a restante era guardada no salgueiro. O "armar" do presépio ou lapinha de escadinhas era sempre um momento de grande alegria, em que toda a família participava. A liturgia era vivida com grande intensidade desde as Missas do Parto, a partir do dia 16, à Noite de Natal, onde o ponto alto era a Missa do Galo, com a anunciação do Anjo e as lindas romagens. Ao chegar a casa, era a hora dos presentes, tão ansiosamente esperada pelas crianças, ao longo de todo o ano. Hoje, as tradições continuam a ter para o madeirense um encanto especial embora o simbolismo, o entusiasmo e o carácter autêntico e religioso do Natal não seja o mesmo de outrora, reflectindo os valores e o consumismo dos nossos dias. Contudo a última década despertou no povo madeirense a necessidade de recuperar vivências antigas. Verifica-se hoje uma maior afluência nas missas do parto, com a ida de grupos da cidade para o campo e a realização de um maior número de presépios. É de salientar o contributo das associações culturais, casas do povo e grupos de folclore, na preservação e recriação destes costumes. Que o Espírito do Natal permaneça sempre vivo dentro de nós, comemorando a Festa em família e recordando as antigas tradições!
António Vale, Dirigente grupo folclórico