Confesso que fiquei chocado com a afirmação do presidente do Governo Regional sobre a situação do grupo Madeira Medical Center. Não tanto na perspectiva empresarial, mas pelo lado humano que a situação transporta. Fosse eu funcionário daquela empresa e ouvisse o chefe do Governo dizer que a ameaça que paira sobre cerca de 500 funcionários é uma "história paroquial" e, provavelmente, voaria o telemóvel ou o que tivesse mais à mão. Porque este é um daqueles temas em que não se pode brincar. Quando uma região como a nossa enfrenta tão graves dificuldades e o líder aborda-as com tamanha ligeireza, é porque alguma coisa não está bem. Não pode estar. É inadmissível que uma situação tão grave, do ponto de vista laboral, económico e social, seja reduzida a historiazinha de paróquia. Por muito menos, já vários governantes deram o lugar a outros ou, no mínimo, pediram desculpa por uma frase mal proferida, por uma brincadeira sem jeito. Mas aqui não. Aqui o líder não se engana e tem sempre razão. Ora, história de paróquia foi ver o presidente levantar o dedo para reclamar a sua situação de duplo vencimento, entre reforma e ordenado, quando se trata de uma inaceitável excepção. História de paróquia é o Governo desbaratar dinheiro em clubes de futebol onde quase não jogam madeirenses nos escalões principais. História de paróquia é ter um Governo autista, que estoira milhões num jornal, com consentimento e participação da Diocese, sob o gasto argumento da pluralidade informativa. História de paróquia é também permitir a construção de parques empresariais sem dar condições sérias aos empresários para lá se instalarem, em vez do pasto de cabras em que alguns se transformaram. Ou fazer túneis que servem de parque de estacionamento, ou heliportos que não funcionam, ou parques temáticos sem gente dentro. As ameaças a quem discorda, a hesitação entre um novo hospital ou um bordel, a promessa de afastar médicos grevistas e as viagens secretas e frequentes são, essas sim, outras verdadeiras e lamentáveis histórias da paróquia em que vivemos. Que fique claro que neste texto não se pretende avaliar estilos políticos nem valorizar ou apoucar o politicamente incorrecto, comportamento que cada um tem o direito de assumir. Apenas se pretende alertar para algo mais importante: a aparente normalidade de perfeitas anormalidades. Atitudes que noutras paragens teriam consequências políticas gravíssimas, passam aqui como água na ribeira em dia de temporal. Aqui é tudo normal. Até a maior hipocrisia ou incorências daquelas que estão à vista de todos são aceites pela maioria com um preocupante desprendimento acompanhado, por vezes, de um benevolente sorriso, como se se tratasse de uma traquinice de uma criança de quatro anos. A verdade é que esta 'criança' actua assim há quase quarenta anos!