5, 4, 3, 2, 1... reset. Era bom que logo fosse assim. Quando entramos num novo ano, os corações enchem-se de esperança. Como se pudéssemos começar de novo. Do zero. A nível pessoal, decidimos que é tempo da dieta que se tem adiado e que foi completamente esquecida pela fartura das festas, de ter mais tempo para nós, para os filhos, de ir ao ginásio com frequência, de deixar de beber ou fumar. De adquirir hábitos de vida mais saudáveis. É o ano de se ser melhor pai/ mãe, esposa/esposo, filho/filha, amigo/amiga, melhor profissional, melhor ser humano. É altura certa para nos excedermos e superarmos. Tudo coisas de que já não nos lembramos nos primeiros dias de Fevereiro, consumidos pela rotina diária, que nos impede de pensar sequer em planos tão auspiciosos.
Em termos mais globais também aproveitamos para ficcionar uma realidade mais cor-de-rosa. Almejamos que seja desta que o país dê a volta, que nos livremos da crise, com quem convivemos há anos, mas que se faz notar de forma mais veemente de quando em vez. Tornamo-nos uma espécie de vencedoras de concursos de beleza, por segundos, que esperam paz no Mundo e outras tantas coisas que roçam a boçalidade, pela forma, inócua, como são repetidas e se esvaziam.
Mas este ano, tenho a sensação de que é diferente. As pessoas nada esperam e tirando a festa parece que o que gostavam mesmo era de empurrar 2011 para longe da vista. Como lixo que se esconde debaixo do tapete. Sabemos que está lá, mas que não incomode. O novo ano aparece com uma nuvem negra que vai fazer desabar uma tempestade sobre nós. “Se isto foi mau para o ano será bem pior”, tem avisado a classe política. E as pessoas, paralisadas no medo, já nem sequer pedem mais do que as sobrevivência a este 365 dias que aí vêm.
Com 2011 vêm as eleições presidenciais e as regionais. E nem umas, nem outras entusiasmam. As pessoas estão cansadas de quem nada mais lhes tenha a dizer do que: “Preparem-se porque não vem aí nada de bom”. Quais cavaleiros do Apocalipse. Porque a maioria não sabe porque se está abater sobre elas uma pesada dívida que sentem não ter contraído. Afinal limitaram-se a escolher nas urnas de um leque vasto, mas sem opções. No fundo todos temos culpa. O estado das nossas contas públicas reflecte bem o país que somos. Aquele que gasta acima das expectativas e depois espera um golpe de mágica. Que não vem, nem depois das badaladas da meia noite.
E hoje, estamos neste beco sem esperança. A fazer lembrar a passagem de ano de 1999 para 2000, em que se esperava um bug informático, que paralisasse a sociedade. Entramos no milénio a medo e nos primeiros segundos de 2000 suspiramos por o Mundo não ter acabado. Hoje tememos o bug da crise, aquele que vem forte com o novo ano. Estou certa de que sobreviveremos, mas talvez seja o optimismo de fim de ano a falar mais alto.