Pe. Martins Júnior Por dever de ofício e por respeito à vontade expressa do defunto (que determinou a missa na igreja da Ribeira Seca e o cemitério de S.Gonçalo para sepultura) vi-me ontem forçosamente metido numa cena crua, feia, degradante, pelo que de tribalismo encerra e pelo que de desrespeito representa para o defunto, familiares e circunstantes: após alguns metros de cortejo a pé sobre "lameiro de inhame", dois homens agarraram pá e enxada e, zás-que-zás", arrastam desesperadamente para dentro da vala comum dos vários caixões pedaços de barro compactado pela chuva da manhã. O suor escorria-lhes camisa-abaixo, os braços ressoavam, as enxadas zuniam, entrecortadas pela respiração ofegante daqueles dois homens. Extenuados, paravam um ou dois minutos e logo a seguir a mesma repetida labuta diante dos ossos olhos impotentes, revoltados. Cheguei a comover-me perante aquela cena que me fazia remontar aos tempos da escravatura Confesso que já estava desabituado deste quadro, depois que em Machico se fez o novo cemitério municipal, cujo processo foi (por que não dizê-lo?) iniciado pelo signatário destas linhas e, depois, continuado e concluído no mandato do dr. Bernardo Martins. No bulício da cidade e na azáfama de natal e ano novo, ninguém dá por isso. Apenas quem lá vai. Ousaria lembrar a quem de direito alguma ou a suficiente atenção para o ritual logístico da sepultura dos nossos defuntos. Merecem alguma ou toda a dignidade. E não sairá muito caro estender, ao menos isso, alguns metros de cimento nos acessos aos covais. Um pingo, comparativamente ao que se gasta para sepultar o ano velho. Bom Ano Novo!