Tenho ouvido falar muito que 2010 foi um ano horrível para todos. Que todos temos que suportar os seus custos. Que todos temos de partilhar restrições. Que todos temos de passar sacrifícios, etc... Mas ao analisar a realidade que nos rodeia quem é que vemos a sofrer estas consequências anunciadas? São os governantes que as apregoam? São os comentadores e alguns economistas que nos bombardeiam todos os dias com as suas sentenças? São as chamadas agências de rating que surgiram do nada e chantageiam os povos como se fossem um poder eleito? Que se saiba toda esta gente está bem de vida, não se privou de nada e alguns ganham ordenados altíssimos, que são uma vergonha para aqueles, que nem 500 euros têm garantidos em 2011. O ano foi mau para as dezenas que morreram nas enxurradas de 20 de Fevereiro. Para os que ficaram sem as suas casa e haveres. Para os 16 mil que estão no desemprego, alguns a viver apenas com a solidariedade familiar. Para a cerca duma centena que vive na rua sem comer e sem tecto. Para os milhares que vivem na solidão das suas casas, que muitas vezes querem comer e não têm. Para os que querem pagar as contas e acabam por ficar sem os seus bens acabando por viver de esmolas e de caridade. Para as crianças que passam fome e a quem a escola lhes nega uma refeição gratuita por dia. Para estes o ano foi mau e a vida continua a ser muito ingrata. É por isso que nos balanços não se devem meter todos no mesmo saco como se todos estivéssemos em pé de igualdade. Existem os que se safam sempre e existem os outros que vão cada vez mais para o fundo do poço. É com estes que obrigatoriamente o poder instituído tem que se preocupar e em vez de cortar as ajudas necessárias, tem que as reinventar, urgentemente, antes que a tal explosão social anunciada pelos Bispos comece a se manifestar. Por mais festas de Natal e recolha de géneros que façam, a época passa e os problemas vão continuar, pois eles são estruturais e exigem soluções estruturais. Sempre pensei que a democracia trazida por Abril seria sempre solidária e que estas situações nunca mais se iriam repetir. Enganei-me, pois os tempos que estamos a viver são assustadores, e se as políticas não mudam urgentemente, não sei o que acontecerá a tantos milhares de cidadãos, que vivem angustiados e metidos em sérios problemas de subsistência. Não existe outra solução que não seja a revolta contra este estado de coisas. Uma revolta séria que faça recuar estas políticas e voltar ao caminho de uma maior igualdade entre os seres humanos pois não é tolerável que alguns vivam na opulência enquanto outros sobrevivem na miséria. Que em 2011 se sinta que vale a pena continuar a lutar. Temos as eleições Presidenciais e as Regionais para dar um sinal de mudança.

Guida Vieira