As festas de Natal e de Passagem do Ano, e muitos outros acontecimentos e motivos muito menos festivos, têm distraído os Portugueses das próximas eleições presidenciais. É minha impressão que os debates entre os denominados cinco principais candidatos, pouco ou nada têm esclarecido os eleitores acerca do que deles já se sabia. Debates que surgiram num período ainda de pré-candidatura, em que se reclamavam e assumiam como candidatos de pleno direito. São bem conhecidas as áreas em que se movimentam, três por ‘nomeação’ partidária e outros dois que sonham com a força da sociedade civil, constituída pelos cidadãos que, eventualmente, não votarão vergados à obrigação político-partidária de levar até Belém o candidato da sua cor preferida. Tudo isto é subjectivo, sabemos, até porque a eleição do Presidente da República deve resultar de um consenso alargado à volta de uma personalidade que tenha carisma e prestígio, quer no País, quer fora dele, de forma a reunir um maior assentimento, e ganhar o respeito de todos, além da exigência de sabedoria e tolerância que se exige às funções da mais alta Magistratura da Nação. Nas últimas duas décadas surgiram poucas personalidades na vida portuguesa que tenham ganho um destaque maior, que tenham conseguido a auréola de prestígio e idoneidade que se exige para o lugar. Os que, porventura, teriam mais possibilidades agasalharam-se num recato cuidadoso, evitando demasiada exposição, e longe dos corredores partidários. Restaram as personalidades criadas nos partidos, uma forma de cidadania que aprecio, e que, num regime democrático, está aberta a todos. Mas, o mal é que se colam demasiado nos programas partidários ou, menos mal, que se preparam para responder num outro lado das suas famílias partidárias, num exercício de apartidarismo que nem sempre é bem executado ou não se escusa do olhar acusador deste povo que está sempre à procura do menor senão para julgar na praça pública os pecados dos governantes, tenham eles dimensão venial ou mortal. Estas eleições presidenciais começaram mal. Com falta de candidatos que tenham a força e a dimensão que o cargo exige. Conhece-se o actual Presidente que será referendado pelo mandato que agora termina (mais pelo seu relacionamento com o governo socialista) e pelo seu anterior trabalho de uma década à frente do Governo da República; Manuel Alegre, pelas divisões constantes que criou no Partido Socialista, onde nunca foi uma personalidade de consenso. Antes um escritor interessante e uma inesquecível voz, que me arrepiava nas madrugadas dos anos da ditadura, debaixo do meu travesseiro, onde o ouvia num rádio a pilhas, na onda curta, fugido do controlo do meu pai que me avisara que lhe tinham dito que a PIDE conseguia detectar os rádios sintonizados nas rádios clandestinas que vociferavam contra o poder do Estado Novo. Resta o candidato comunista, rotulado à partida, e dois independentes, com pouca intervenção na vida portuguesa, cujos programas de acção perdem conteúdo pela pouca força política dos mesmos. É a contradição de um sistema: queremos um Presidente com pouca força partidária, mas reconhecemos que só com os apoios dos partidos é que podem ser eleitos. São esses ‘os cinco magníficos’… Agora surge o sexto candidato, formalmente admitido no dia de ontem, quando aliás deveriam ter sido todos anunciados. O madeirense José Manuel Coelho entra na liça, com fama de agitador e de inimigo confesso dos poderes instituídos na Região e no País, cujos líderes verbera, em defesa de uma governação mais transparente e eficiente e contra a corrupção. Está fora dos debates televisivos (já realizados), por que, e isso é verdade, o regime em Lisboa, já escolheu quem são os mais fortes, o que é incrível numa eleição em que todos devem ter as mesmas oportunidades. E agora? Mesmo que Coelho não vá para as cidades e aldeias do continente, fazer a melhor propaganda da Madeira, que efeito terá esta campanha para nós, madeirenses, que nos últimos anos andamos a aparecer nos telejornais como actores de plano inferior, umas vezes envolvidos em assuntos de pouco nível, outras vezes como desgraçadinhos a quem tudo tiraram, outras ainda vítimas das infelizes ocorrências que assolaram a Região? Contudo, temos de ter a noção de que esta é uma voz incómoda, mas corajosa, que tudo fez para chegar a esta candidatura, quando outros de maior e melhor currículo, esperaram sempre que do Continente lhes indicassem a personalidade a quem iriam (e irão) baixar-se, na chegada e na partida, por quem agitarão bandeirinhas e para quem discursarão, a favor dos senhores de lá. Não me movem instintos político-partidários, ou regionalismos balofos, mas a verdade é que a Madeira tem pela primeira vez um candidato à Presidência da República, na era pós-revolucionária de Abril. Este é o facto que registo. Será o nosso Tiririca, como alguns apontam? Isso, veremos. Estamos perante realidades diferentes. Mas será curioso acompanhar esta campanha. Mesmo que os votos não tenham expressão, a Madeira será badalada, por motivos cuja bondade não antevejo, neste mês de Janeiro…