Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a vi. O seu corpo pequeno, disforme, em cima de uma das mesas no bar da faculdade. Gesticulava e falava, indiferente, numa normalidade que o meu olhar tinha dificuldade em acompanhar. Roubou-me a atenção e quanto mais tentava desviar-me daquele insólito quadro, mais fascinada estava. Encontrei-a outras vezes na cadeira de rodas, ao colo das colegas e até a dançar, imagine-se.
Um dia cruzamo-nos num evento já findo o nosso percurso académico e falei-lhe. Até então as nossas conversas tinham sido de circunstância, pois aquele ser de tamanho pequeno sempre me intimidara. Vivia no pânico de que ela encontrasse piedade no meu olhar. Ela que não deixa que tenhamos pena ou comiseração do seu estado. E eu nunca a tive, verdade seja dita. Tive sorte de ser escolhida para o seu núcleo de amizades e desde então comprovei o que sempre soube. Ela dá sentido à frase de Fernando Pessoa, que escreveu pela pena de Alberto Caeiro: “Porque eu sou do tamanho do que vejo/E não do tamanho da minha altura”.
Privar com ela não é aprender a lidar com a diferença, é dilui-la e torná-la normal nos anormais quadros da vida. Entrevistei-a várias vezes ao longo destes anos. “Quanto não vale ter uma amiga ‘def’?”, perguntou-me quando, com ela ao colo, passei à frente de uma fila para um concerto. Sempre aceitou a sua condição e o facto de lhe ter sido dado um prazo de validade curto desde que nasceu. Todos os dias contraria essa sina. Quando lhe perguntam como seria se fosse dita normal, atira certeira: “O que sou deve-se à minha doença”.
A última notícia que recebi é que está a tirar a carta de condução, algo que parecia impossível à partida. Mas com ela há dificuldades, é certo, mas dificilmente inultrapassáveis. Tenho a felicidade de a ter na minha vida, e por isso, para mim, o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, que hoje se assinala, não é uma mera efeméride. Tem a cara da Mafaldinha estampado. Um rosto de sucesso que me diz - e a todos os que a conhecem - que se ela consegue, todos nós conseguimos. Sem desculpas.
PS. Partilhar a beleza singela da história da Mafalda Ribeiro (http:/gotanocharco.bloguepessoal.com/) não visa camuflar as dificuldades por que passam milhares de portadores de deficiência. Há muitas Mafaldinhas por aí, nem todas com uma história tão feliz.