
Não quero falar do 20 de Fevereiro. Já se disse muito. Repetiu-se. Para muitos significou a perda de tudo. Mas aprendeu-se pouco. Planos e estudos são instrumentos de prognóstico, de prevenção, para monitorização e ensaio. Não são soluções de diagnóstico e de reacção aos acontecimentos. Quero acreditar na humildade dos nossos governantes em reconhecer os erros. 2010 trouxe-nos esta lição: perto de 1.400 litros de água num ano, 40% da qual desabou sobre o arquipélago em apenas cinco dias. Estes são valores que entram para a história. Chuvas que não apagam memórias.
2010 não foi um ano de boa memória e só faço votos para que se corrija o apetite voraz para transformar o meio, usurpado até às entranhas da ilha, e se elimine a tendência para desacreditar a área do conhecimento das ciências da natureza e as regras ambientais na construção do futuro. Enquanto a chuva e os desígnios celestes vão assumindo a ‘factura’ dos acontecimentos, esta estratégia de desenvolvimento governativa continuará discípula da doutrina superdominadora da natureza a favor do crescimento desenfreado e fiel à prepotência - que dispensa quem lhe adverte, aconselha e aponta o caminho do desenvolvimento sustentável, para depois lhes colocar o selo de “reaccionarismo, ignorância, má fé, e analfabetismo”.
Mas este foi também o Ano Europeu contra a Pobreza e a Exclusão Social. E o ano fecha sem que se conheçam medidas concretas para atenuar o impacto da austeridade seja nas empresas, nos trabalhadores, nos consumidores ou nas famílias. Estamos mais endividados, mais pobres, mais desempregados e desamparados. Mais velhos. Vivemos mais, mais sós e com menos dignidade.
Conforta-me o facto de não termos perdido a generosidade e de sabermos fazer da solidariedade uma bandeira exemplar. Se por um lado, não temos pejo em estender a mão (para pedir ou para ajudar), fazendo de Estado Providência, por outro contribuimos mais, pagamos mais impostos, trabalhamos mais anos, sem que consigamos vislumbrar uma perspectiva que seja de que esse esforço se congemine em produtividade, em receita útil, ou em acção social que premeie os activos. Não há coragem política para implementar reformas estruturantes de redução da despesa pública porque o governo não quer para si o ónus dessa responsabilidade. Preferirá endereçar as culpas, daqui por uns meses, quando o FMI perder a paciência e decidir entrar por aí dentro para 'governar' o país. Um bom ano para todos!