Estamos na altura do ano em que entre votos de boas festas e de feliz ano novo, acabamos todos por nos esquecer um pouco da realidade que nos rodeia. Entre a noite do mercado e a carne vinho e alhos a crise parece por um momento distante. Mas vem aí um ano desafiante e temos que ter a certeza que não vamos perder esta oportunidade para mudar de vida. Aqui ficam alguns contributos na forma de resoluções para o ano de 2011. Vou mostrar à Srª Merkel e ao Sr. Sarkozy que os PIGS podem ser mais do que carne para chouriço. Não vou consentir que continuem a destroçar o sector primário do meu país a favor dos agricultores franceses por muito tentadores que sejam os incentivos. Não vou aceitar que não precisamos de desenvolver uma industria inovadora capaz de exportar porque isso é exclusivo dos alemães. Vou desconfiar dos subsídios para desenvolver o meu país que depois são usados para comprar tecnologia militar ou de transportes alemã, inglesa ou francesa. Não vou concordar com alargamentos da união europeia enquanto não me explicarem como é que a meu país e a minha qualidade de vida vão melhorar com isso. Não me vou esquecer que quando alguém se vira para leste me mostra as costas. Vou começar por explicar isso precisamente aos que agora entram na ilusão do sonho europeu porque vai chegar a vez deles. Não me vou resignar a que o futuro do meu país seja tornar-se numa estância para reformados. Os meus filhos merecem muito mais do que isso. Vou ser intransigente com o esforço que me foi pedido para ultrapassar a crise financeira. Não vou aceitar que o estado continue a gastar mal os meus impostos. Mas vou primeiro compreender que os governos são apenas uma parte do estado e que a exigência começa em cada um de nós e não pode ser delegada num qualquer político de carreira ou de circunstância. Vou aceitar que vivo num pais com poucos recursos, que não se pode dar a determinados luxos supérfluos. Vou assumir que vivo num país com história que tem muito mais vocação para fidalgo pobre e honrado do que novo rico deslumbrado. Não vou sonhar andar de TGV mas não vou deixar de passear com orgulho nos Jerónimos. Não posso ter aeroportos modernos e dezenas de estádios de futebol mas posso ter um património natural e cultural invejáveis e uma seleção de futebol com baixinhos criativos e habilidosos. A solução para Portugal está em reconhecer a sua natureza, a sua história, o seu património, a coragem e a criatividade das suas gentes. Temos que saber apelar ao que temos de melhor e não tentar sermos aquilo que nunca seremos. Vou ser fiel à defesa do mérito como princípio de desenvolvimento. Vou defender que as pessoas devem ser nomeadas e promovidas exclusivamente pelo mérito. Vou exigir que todos sejam avaliados sejam pessoas ou serviços. Não vou aceitar que nenhum sector público seja excluído destes princípios sob nenhum pretexto muito menos corporativo. Vou confiar que a grande maioria das pessoas é honesta e quer fazer o melhor. Mas vou ser igualmente implacável com quem é apanhado a quebrar as regras do jogo de confiança que tem que se tornar na base da nossa sociedade. Não vou acreditar nos políticos que continuam a prometer o que todos sabemos não poder ser cumprido. Não vou ter pena ou defender quem não quer trabalhar, nem vou aceitar direitos adquiridos para quem está acomodado. Vou fazer tudo para que 2011 seja o último ano em que todos vão ter cortes iguais nos seus salários, porque isso significa aceitar que todos tiveram a mesma responsabilidade e trabalharam da mesma forma. Vou celebrar o sucesso e as boas notícias, sem vergonha, inveja ou falsas modéstias. Não vou ter inveja do meu colega que trabalha e faz as coisas bem, mas não vou deixar de ficar satisfeito quando é a minha vez. Não vou achar que todos os empresários são vigaristas e exploradores, vou reconhecer que são eles que geram riqueza e emprego e que por isso devem ser reconhecidos e apoiados. Vou celebrar conquistas como os recentes resultados dos inquéritos ao potencial científico e tecnológico e do programa de aferição internacional de estudantes (PISA) que confirmam finalmente Portugal perto do topo dos rankings da ciência e da educação. Não vou aceitar que a retórica política deturpe o que devem ser objectivos estratégicos para o país. Vou ter orgulho no Mourinho e no Cristiano Ronaldo. Não vou tirar pelo Barcelona nem achar que pintar as unhas de preto é foleiro desde que eles continuem a ganhar e a ser os melhores do mundo. Vou ainda ter mais orgulho de pessoas como a Maria do Carmo Fonseca que ganhou o prémio Pessoa e gastou os 60000Euros do prémio a comprar equipamento para o seu laboratório. Bravo! Pela minha parte estou disponível para aceitar que 2011 seja um ano complicado, mas não me vou resignar para que seja mais um ano perdido. Se não mudarmos de vida vamos continuar com a mesma sina para 2012, 2013, 2014... a responsabilidade é só nossa. Bom Ano de 2011, vamos a ele!

Nuno Nunes - Professor Universitário