Tive a sorte de ter assistido ao processo evolutivo do fenómeno futebolístico observado nas últimas três décadas, fazendo parte dessa família por via da minha opção profissional, e confesso que a mesma evolução despertou em mim diversos sentimentos, alguns deles antagónicos. Ao longo deste período satisfez-me assistir à mudança de hábitos por parte dos profissionais do ramo, aos mais diversos níveis nomeadamente ao nível da imagem e da linguagem utilizada. E se existem dúvidas, comparem a infindável lista actual de atletas e treinadores que surgem em propagandas publicitárias ou outras com fins humanitários em todo o mundo com as escolhas das grandes marcas no passado, onde raramente víamos este tipo de escolha. Mostrando um novo potencial, satisfez-me também ver o enorme exemplo dado na campanha da Selecção Nacional na preparação para o Euro 2004, unindo o País como nenhum partido, nem coligação política jamais o fará. Satisfez-me igualmente verificar o crescente interesse por parte das crianças e jovens escolhendo como seus ídolos exemplares praticantes deste fantástico desporto. Também assisti à evolução do nível económico vivido neste ramo, onde de uma fase de fraca aposta, passou-se para uma era de grande visibilidade, surgindo investidores de várias origens, quer pública e privada. No entanto e dando razão à teoria dos ciclos, o desinvestimento, ou a crise voltou, antecipando o que anos mais tarde aconteceria a outros ramos de actividade económica do mundo. Pois é, a crise financeira no futebol chegou antes desta que agora tanto se fala mas infelizmente aqui, ninguém pensou na realização dos modernos fóruns meetings ou cimeiras para se debaterem medidas e eventuais soluções para a combater, e a primeira consequência disso foram numa primeira fase os reflexos sentidos pelos profissionais e numa segunda a extinção de alguns clubes nacionais. Receando que a evolução observada nos últimos 30 anos seja ofuscada, ou mesmo posta em causa pelos momentos difíceis, vividos nesta conturbada actualidade, pedi ao Pai Natal para que trouxesse competência e bom senso para o futebol, talvez ainda a tempo de o salvar.

João Luís - Treinador