Estamos prestes a entrar no ano novo, para trás fica um 2010 com emoções, com alegrias, com muitos reencontros e muita, muita música interessante.
O ano começou estava eu ainda em Londres e nada melhor para arrancar em força do que ouvir os Simian Mobile Disco ao vivo no “superclub” Matter na Arena O2. Este club que infelizmente fechou as suas portas em Junho, era uma aposta dos donos do conhecidíssimo Fabric, mas que devido à sua localização (ficava a cerca de 15 minutos de comboio do centro da cidade) e às muitas paralisações da linha de metro que servia o O2 ao fim de semana, entre outros factores, pagou muito caro o elevado cachet da programação de luxo que ofereceu aos clientes, bem como o aluguer do referido espaço e teve que fechar as suas portas. Era um “superclub” no verdadeiro sentido da palavra, tinha dois andares, duas pistas de dança, vários bares de apoio, e um som bastante aceitável, tendo em conta o espaço físico do club não ser o melhor em termos acústicos. Mas voltando aos Simian Mobile Disco, já conhecia muitos singles destes rapazes, mas a actuação ao vivo foi de chorar por mais, muito improviso, muita energia, interacção com o público q.b. e um som de grande qualidade, seria uma excelente aposta para a Madeira para o próximo ano. Em Fevereiro estive ainda num outro club, o Cable, a ouvir um nome bem conhecido dos portugueses e que até já cá esteve no ultimo WeekendDance, o brasileiro Gui Boratto. É notória a melancolia na música do brasileiro, mas quando estive na festa da editora Renaissance para o ouvir, eu e cerca de mil pessoas já sabíamos o que esperar: beats crus, linhas de baixo agressivas a contrastar com melodias doces e emotivas, muitas delas vindas do excelente ultimo álbum “Take my Breath Away”. Nos primeiros meses do ano tive ainda a oportunidade de tocar no Monty’s, um dos muitos miniclubs situado em Bricklane, uma área muito popular entre os músicos, dj’s, artistas e fashionistas londrinos. Os Domingos eram quase sempre passados no Fabric, nas festas “Wetyourself”, mas o que dizer deste templo ? Fabric em inglês quer dizer tecido, mas ao entrarmos neste club deparamo-nos com uma autêntica fabrica em tijolo, o minimalismo da decoração dá um ar contemporâneo ao espaço, aqui é lugar de se ouvir música e de dançar, não de se apreciar a decoração ou olhar para as pessoas. As cabines de dj. são autênticos bunkers artilhados com colunas de munição, e toda a estrutura física do complexo de três pistas é pensado única e exclusivamente na acústica e consequentemente na qualidade do som, que é dos melhores que já tive a oportunidade de ouvir. O som predominante é o Drum N’ Bass às Sextas, House e Techno aos Sábados e Domingos. Tive ainda a oportunidade de ouvir a princesa do Techno, a alemã Ellen Allien, que levou a sala ao rubro com o som característico da sua editora Bpitch Records, e ainda uma das muitas aparições da dj/vocalista Miss Kittin. Mais adiante tive o grande privilégio de estar numa das melhores festas que já presenciei, e que festa. Foi num dos muitos “lofts” espalhados por toda a cidade, arranjado especialmente para este evento, uma festa de house com um dos meus Dj’s favoritos, o alemão Dj Dixon, o público, cerca de 300 pessoas, estava em perfeita sintonia com a música que este artista estava a debitar pelo sempre incrível sistema de som Funktion One, ora Deep House, ora com alguns apontamentos vocais, muitos re-edits de temas dos anos 90, uma noite incrível com um espírito que há muito não via. A perfeita sintonia entre público e dj.
Em Julho um dos meus álbuns favoritos do ano tinha já sido editado, “Further” é o título do trabalho dos inimitáveis Chemical Brothers, e ao longo destes meses a remistura de Boys Noize para “Swoon”, um dos temas do álbum, tem sido a que mais reacção provoca entre o público, sendo sem duvida um dos temas que mais toquei ao longo de 2010, especialmente no final dos sets. Outro dos meus álbuns favoritos do ano é sem duvida do Sr. “put your hands up for Detroit”, Matthew Dear com “Black City” um disco cheio de influências Pop, Funk , House e Techno. Achei curioso também o que se tem passado com a música de dança este ano, o House voltou em força e com ele um sentimento nostálgico, um querer regressar ao passado, é com esta ideia pelo menos que fico, que eu mesmo tenho recuperado muitos temas de anos passados, as armas agora passam por mostrar discos mais antigos que ninguém tenha, e no fundo é também mais uma forma de dar a conhecer às novas gerações o que influenciou os actuais produtores de música de dança. Mas como dizia, logo no inicio do ano é editado um dos temas que mais prova esta minha afirmação de que o retro está em voga, muitos de vós provavelmente já o ouviram num club ou bar, chama-se “Coma Cat” e foi produzido por Tensnake um alemão ao qual tinha já feito referência no meu primeiro artigo. Este tema transporta-nos imediatamente para o passado, com uma nova roupagem, mas com cada vez mais pessoas a tocarem e a falarem sobre este disco, o inivitável aconteceu, a Defected, uma editora com muita força, considerada a “major label” da música de dança, faz uma re-edição do disco em meados de Junho, e claro está a música chega a mais pessoas e torna-se um tema essencial em muitos dj sets. Mas este regresso ao passado foi notório essencialmente na maneira como as pessoas voltaram a fazer música, com o futurismo e a mecânica do minimal ter entrado em declínio, os produtores voltaram-se de novo para os samples. Para uns foi basicamente re-editar discos já feitos mas para a maioria foi o renascer do espírito “jackin house” de Chicago muito popularizado na segunda metade da década de 80. Artistas como Riva Starr (para nomear um nome que seja minimamente conhecido) devolveram ao House a garra que estava a fazer falta nestes últimos anos, até conceituados artistas do Techno como Joris Voorn, “deram a mão” ao hype gerado por este movimento com discos cheios de groove, samples vocais, pianos e beats bem samplados a evocar uma era muito marcante da historia da música House.
Do outro lado do aspectro musical foi curioso observar o regresso dos “Rave-Synths” a certos estilos de música de dança. Se no Electro este era já um dado consumado, alguns artistas associaram este som ao sempre popular movimento Trance europeu, e daí alguns deles, maioritariamente leia-se Sweedish House Máfia, viram aqui um excelente atalho para subirem uns bons lugares na tabela de popularidade da Dj Mag e juntaram as teclas Trance aos ritmos House. Vá eu até que me considero uma pessoa com sentido de justiça, fair-play a estes três produtores Suecos porque ao menos na linha de baixo fizeram qualquer coisa de interessante. No geral acho que foi um ano com muita boa música, apesar dos muitos discos de qualidade duvidosa, mas é Natal pensamentos positivos para enfrentar mais um ano que aí vem, deixemo-nos de pensar na palavra crise, vamos fazer os possíveis por ir dançar ao fim de semana, para que na Segunda-Feira as mentes estejam relaxadas e preparadas para mais uma semana de trabalho. Desejo-vos um Bom Natal cheio de boa música e de alegria, e um excelente ano novo, com muita fé e pensamentos positivos.
Até para o ano.
Michael C - Dj