Em pouco mais de 48 horas acabou a euforia do Natal. Por entre restos de papel de embrulho e ‘tupperwares’ que se arrumam nas prateleiras do frigorífico, restam apenas ligeiras recordações de presentes trocados, mensagens enviadas por amigos distantes e uma vontade imensa de jejuar depois de tamanho festim. É por altura da primeira e da segunda oitava que cresce a nostalgia, que martela na mente o velho dito de que o que é bom acaba realmente depressa. Quando já não há prendas para distribuir, quando as acácias murcham nas jarras, quando as searas não crescem mais, quando acaba a parafernália das visitas à família, começamos a questionar o porquê de investir tanto numa época que termina em pouco mais de 48 horas. Mantêm-se as gambiarras acesas na árvore de Natal e os enfeites perduram por mais algumas semanas, mas dentro de nós parece que há um novo acordar para a realidade, longe dos abraços e dos desejos de Feliz Natal, dos brindes e do sinal de uma qualquer mensagem de ‘Boas Festas’ recebida e repetida para tantos números. É nestas alturas, quando a calma parece reinar depois da tempestade dos dias 24 e 25 de Dezembro, que há tempo para pensar um pouco além, além dos embrulhos já desfeitos e das contas que se acumulam no cartão de crédito ou em recibos de Multibanco. E se o espírito de Natal se prolongasse durante todo o ano? Não o espírito consumista das prendas, nem o espírito do exagero dos pratos que se servem. Falo do espírito de solidariedade, de amizade sincera, de troca de abraços e de sorrisos, de telefonemas que se fazem a amigos distantes ou a familiares que se encontram do outro lado do mundo. Ou então do espírito do perdão, de quem esquece brigas ou ofensas passadas, de quem sente o desejo sincero de dar a outra face. Mas isso é muito mais difícil do que sobreviver ao Natal, do que comprar as prendas como quem risca tarefas de uma lista, do que juntar mais uma broa ao lanche ou mais um pouco de licor ao muito já bebido. Infelizmente, para muitos, para quase todos, o espírito de Natal esgota-se na primeira oitava e é completamente esquecido com a época de promoções que chama as pessoas novamente para as lojas e para aquilo que menos interessa. Porque o Natal, o verdadeiro Natal, não está à venda, nem pode ser embrulhado, e por isso, é tão difícil de encontrar e guardar dentro de cada um de nós.