Maria M. Dei um pulo da cama e espreguicei-me. Com um dia solarengo como este, apetece mesmo caminhar... Fui ao café da esquina e como não havia o Diário de Notícias, desci até o Funchal e lá comprei ao homenzinho que vendia junto à porta da igreja. Depois de folhear, comecei a ler as histórias de Natal... ainda bem que o nosso povo é dotado de uma grande capacidade de solidariedade... mas... havia mais uma história, a do Malhado e essa fez-me deslizar uma lágrima... e foi aí que comecei a rebobinar os meus Natais... Eram sempre dias especiais e vividos com muita intensidade. Os brinquedos que recebíamos eram simples e não haviam rótulos de que não eram aconselhados às crianças... pequenas máquinas de costura, bonecas de trapos, serviços de chá em miniatura... enfim! Mas o que mais lembrava o Natal, eram as missas do parto e as idas ao Campo Almirante Reis andar de carrossel e ir ao Circo. Ainda estou a ouvir a voz de meu pai: "- Pequenas vamos ao circo"... e lembro-me que pulávamos de alegria. A minha mãe aproveitava o dia para comprar alguma coisa para a lapinha e depois íamos para casa todos felizes. Ornamentávamos o pinheiro e ajudávamos a fazer a lapinha. No dia seguinte havia sempre um gato que se deitava mesmo ao pé do Menino Jesus, a Branquinha, sem nunca desmanchar uma imagem que fosse. O Natal também era a festa para os nossos animais e de mais alguns que o meu pai levava lá para casa. Ninguém passava fome e ver gatos e cães esfomeados a entrarem no nosso quintal a pedirem comer já fazia parte do nosso dia a dia. Neste turbilhão de pensamentos cheguei a casa. Tinha andado umas duas horas e estava cansada. Sentei-me no sofá e sem querer adormeci e comecei a sonhar...Estava no meio da serra e um cão guiou-me até uma gruta. Achei estranho pois o animal que parecia estar perdido, começou a falar comigo e disse-me que Jesus tinha nascido mais pobre do que há dois mil anos e que sentia os problemas não dos homens, mas dos animais e foi assim que entrei numa gruta bem fria e vi o Menino numas palhininhas. Não havia um burro nem uma vaca, mas em vez disso estavam lá o Malhado, a Eva a proteger o Menino Jesus, o Boby, a Leka, a Kida, o Farrusco e outros que não conhecia. Todos afagavam o Menino e davam-lhe calor... de repente acordei com a Xana (gata) a lamber-me a mão... Para mim o Natal é estar com os meus animais, pois eles também fazem parte da minha família.