Por estes dias, em que a nossa vida ganha uma banda sonora. Em que andamos na rua inebriados pela música que nos acompanha os passos e pelas luzes que nos iluminam o percurso, acreditamos em quase tudo. Ou melhor, suspendemos a nossa natural tendência para o pessimismo e para a descrença.
É por isso que o Natal nos corre tão bem. É por isso que, a cada mês de Dezembro, voltamos todos a ser a criança que um dia fomos. E eu, que sempre acreditei e acredito na magia deste e de todos os natais, começo a sentir uma melancolia triste quando à noite do dia 24, quando ao dia 25 seguem-se todos os outros dias. Vem o fim-do-ano, e, lá para o dia dois, acordamos todos do sonho. Passa-nos por cima o genérico da nossa ficção natalícia, vai-se a banda sonora e resta-nos esse quotidiano sem magia onde mergulhamos demasiadas vezes.
Fica sempre esse vazio que se prolonga até um outro Dezembro, em que voltamos a encontrar, colectivamente, o sonho.
E não se percebe porque tem de ser assim, quando, está mais do que claro, que o que nos falta é acreditarmos mais vezes.
Falando de Literatura, Humberto Eco diz que "a regra fundamental para abordar uma obra de ficção é o leitor aceitar tacitamente um pacto ficcional, a que Coleridge chamava "a suspensão da incredulidade"... Aqui reside o fascínio de toda a ficção verbal ou visual: encerram-nos dentro dos limites do seu mundo e induz-nos de uma maneira ou de outra, a levá-lo a sério... os mundos ficcionais são parasita do mundo real". É claro que os livros são a vida, mas a vida não é só os livros. Mesmo assim, deveríamos acreditar mais vezes, suspender mais vezes a incredulidade e deixar entrar a magia onde, habitualmente, ela não existe.
Porque, afinal, se repararmos bem, a existência para lá do Natal também está repleta de pequenos milagres, de grandes encontros, de subtis momentos de magia. A esses só temos de acrescentar as luzes e a música que transportamos mais como coisa própria, do que como adereço exterior.
Quem sabe se, tal como a ficção, a regra fundamental para abordar a vida não será aceitar tacitamente um pacto ficcional e suspender mais com maior frequência a incredulidade?