Sempre que penso em sonoridades recordo-me do texto escrito pelo que foi considerado, na História do Actor, o primeiro actor profissional: Ângelo Beolco que também desempenhava as funções de encenador e autor. Neste caso, refiro-me a um dos seus textos mais importantes A Mosqueta, obra significante do século XVI que marcou a grande mudança no teatro Italiano. Segundo reza o texto Ruzante, o protagonista, acaba por se ver em maus lençóis quando tenta ludibriar a sua mulher utilizando uma pronúncia que não a sua. No epílogo o Vilão da história refere que "Se fosse cá eu, havia de fazer uma lei e um estatuto novo: que quando um fosse de uma região e quisesse falar à maneira de outra região, ou quisesse mudar de língua, eu havia de lhes fazer passar a vontade…" Pois bem, tudo isto vem à baila porque acredito que nada melhor para diferenciar uma localidade do que o seu verdadeiro linguajar e quando acontece teatro, excepto quando à partida são definidas convenções fonéticas, o que importa é que as personagens através da voz dos seus actores se façam entender perante o público que os assiste. Se não for pela língua, pronún-cia, sotaque ou idioma que seja pela gestualidade universal de actor, que aliada às entoações e intenções expres-sas alcançam até o espectador menos letrado. Valha a verdade que o grande público do teatro foi sempre o povo e este nunca deixou de o perceber. Tudo isto a propósito de se achar que teatro a sério é somente quando todos os intérpretes pronunciam as palavras na sonoridade estabelecida como se fosse a única e verdadeira música das palavras de um povo. Tremendo engano para quem quer encontrar desculpas para não valorizar os artistas de cada localidade de uma mesma língua.

Eduardo Luíz, Encenador