Indiferente às lamúrias do costume, vagueia o sem-abrigo em manhã de Natal pelas ruas da baixa - levando no saco de plástico a garrafa de vinho falida, meia carcaça e os cêntimos recolhidos à porta da Missa do Galo. Um errar curvado pelas lamas do Inverno, beata mal acesa ao canto da boca, desprezo pelo 'jingle bells' dos altifalantes e pela estridente bomba que algum traquina lhe rebente nos pés roxos e dilacerados. O pobre afaga o fiel rafeiro e ambos continuam, sem plano de viagem. Miséria houve sempre e em todo o lado - reconfortam-no às vezes, quando espera um copo amigo à soleira da tasca. Quem sabe até se não lhe passou pelos ouvidos o rádio do vendedor ambulante a narrar os cumprimentos de Natal entre as excelências da Região! Lastimaria o carpido lancinante do barão parlamentar, à saída do Palácio de S. Lourenço, acerca do agravamento da crise em 2011, que obrigará tal senhoraço a "prescindir de muitas coisas". Isso apesar do ordenado luxuoso e das fartas reformas à vista. E quem diz dos dinossauros das sacras instituições regionais, diz dos empresários do regime e das famílias ricas, hoje reduzidas a escassas trezentas. O aperto não poupará classes. O sem-abrigo, sem muito para "prescindir", poderia ajudar essas vítimas da crise, mas a piora também o atingirá. Mais pobres, desemprego e redução de salários determinam cortes no consumo de tabaco e, logo, escassez de beatas para juntar. O preço do 'Ganita' subirá. A miséria invadirá os contentores de lixo à roda do Mercado, onde o miserável e comparsas costumam adquirir os bens de primeira necessidade. Que o libertem ao menos hoje, o dia mais calmo na cidade. Deixem-no descobrir um bar onde algum freguês distraído aplique o piparote na beata incandescente em direcção ao Natal da rua. Não apenas os ricos e os sem-abrigo pagarão pelo negrume de 2011. Se a classe política aumenta quando quer os seus próprios vencimentos, já 16 mil cidadãos se deparam com as sequelas do desemprego à mesa da Festa. Milhares de outros saboreiam a precariedade laboral. Outros bebem o fel das falências. Francisco 'vosselência', popular sem-abrigo e cavalheiro da cidade, execrava no seu tempo as cantilenas lamechas de Natal. Mal sabia o pobre que nessa altura se urdia um plano cínico e ruinoso conducente ao desvario que sofremos agora. Um Natal 2010 que obriga muitos pais a iludir com lembranças do '300' as crianças que voltam a sair de casa famintas para as aulas, como no ante-25 de Abril. Porque aqueles que falam em nome do povo aplicam o dinheiro público há 30 anos em destinos absurdos. Ante o indiferentismo da Sociedade. O Natal já se destinou a lembrar a igualdade entre os homens trazida por Cristo. Doutrina perigosa para o sistema controlado e segregacionista dos antigos. Fatal para ele. Porém, antes de sucumbir no Calvário, ensinou liberdade. E mostrou como expulsar vendilhões do templo, desamparar covis de ladrões e desnudar os militantes do farisaísmo patarata. A mensagem da igualdade - terror dos medíocres - dissipou-se e reapareceu alternadamente na travessia dos séculos. Hoje, o fulgor do Pai Natal ofusca a essência que marcava Dezembro, independentemente de credos. Esvaiu-se a luz d'O Nazareno. Se os felizes quisessem, haveria menos infelizes. Mas reclamar igualdade em certas latitudes continua perigoso como há dois mil anos. Reflicta antes de pedir o regresso de Jesus à Terra para, com o seu azorrague de cordéis, banir os vendilhões. As actuais cliques dominantes assentam na loucura e na crueldade. Às suas garras, o Redentor voltaria ao padecimento antigo. Herodes, cego pelo poder, epiléptico de ciúmes ao saber do nascimento do "Rei dos Judeus", ameaça para o seu lugar no trono, ordenou a matança das crianças até aos dois anos. Ora, a ridícula e anacrónica inveja de hoje, errando o alvo na matança dos inocentes, montaria perseguição no dia em que, com apenas 12 anos, Jesus revelasse divina sapiência ao interpelar os doutores em Jerusalém. É ver as televisões, o que se passa por esse mundo, longínquo e mais perto, as guerras e os conflitos gratuitos, injustificáveis. Enfim, o espírito natalício triunfa nesta quadra. A canja quente atrai a família à volta da fogueira dos princípios comuns. Pior vai a tibieza do espírito, a falta de vontade e de coragem. Apesar dos atentados à inteligência colectiva, persiste o receio de mostrar quem manda nas democracias, que é o povo. Adora-se o 'bezerro de ouro'. A idolatria persiste, o culto da personalidade. Os povos a não aceitarem que o luar não é obra da Lua, mas o reflexo do Sol. Ou que, como diz a máxima, não são as velas a fazer mover a nau, mas o vento. Antes de Jesus, um notável clássico acordou "os míseros homens adormecidos em sono profundo, descuidados de si próprios e da sua dignidade". Hoje pregaria aos peixes. Muito livre segue o vagabundo, esvaziado o resto da garrafa de vinho a martelo. Que importa o céu azul ou negro, interessa lá se alguém debate desigualdades ou hipocrisias de Natal! Já Francisco, que há 25 anos percorria vielas e avenidas do Funchal no seu fato castanho tão ensebado como o cabelo, a saudar todos com vénia, 'como está vosselência?', partia conformado quando os clientes da 'Fava Rica' lhe negavam um último trago: "Vou para os meus aposentos, estou a ficar ali no hotel." Depois, víamo-lo acostado nos cartões, contra o 'Orquídea', aparentemente imune à lâmina do frio, mesmo quando soprava o 'camacheiro' da sua freguesia sobre o Funchal, em Dezembro. Nunca lhe ouvimos uma queixa contra as agruras da vida, nem pelo Natal. No seu bom trato, dava a outra face ao azar, como o Redentor ensinou. Erro crasso, porque se um sorriso ingénuo rompe a borrasca, não chega para mudar o tempo. Mas ele insistia. Até às suas últimas aparições, vagueou sorridente a fazer vénias e a tratar todos por 'vosselência', tanto os importantes que ignoravam o seu "mais vale pedir do que roubar" como aqueles que entendia serem ainda mais infelizes do que ele. 'Vosselência' sabia que, depois do Natal, tudo volta a ser relativo.

Luís Calisto