Teresa Baeta da Silva Chegara a época preferida do Eduardo. As luzes iluminavam o bairro, a neve cobria as ruas e as crianças juntavam-se para brincar nesse aglomerado de algodão frio. Os vizinhos convivem e o que não faltam são as galhofas. Desde pequeno que é neste ambiente alegre que Eduardo está acostumado a viver, ano após ano. Era um rapaz que não tinha mais do que nove anos. Tem olhos negros e a luz parece que dança nos seus olhos. A sua pele mais escura distingue-o dos outros meninos da sua idade. Andava com um sorriso no rosto e tinha sempre alegria para dar a quem precisava. Mas o melhor de tudo é que comportava-se sempre bem, o melhor que podia, para que no dia de Natal pudesse receber um presentinho do Pai Natal. (para poder receber no dia de Natal um presentinho do pai Natal) Não queria mais nada e compreendia o porquê dos pais não lha oferecerem nada, pois sabia que eles eram pobres. Acordar de manhãzinha nesse dia especial e correr para a arvorezinha, que só tinha três ramos e um presépio ao lado, só com Maria, Jesus e José, bastava para agradecer ao Pai Natal. E à noite? Um jantar com a família. Amor era o que não faltava e assim era o Natal deste rapaz. Do outro lado do bairro, vivia um colega, o Afonso, dois anos mais velho que o Eduardo. Afonso não passava de um rapazinho rechonchudo, de pele muito clara que realçava os seus lindos olhos verdes. Ao contrário do Eduardo, Afonso tinha tudo o que queria, pois os pais estragavam-no com miminhos. Para ele, todos os natais era sempre a mesma coisa: escrever uma enorme carta com todos os brinquedos que queria, possíveis e imaginários, e "puff", como que por magia, lá aparecia tudo o que pedira: carros, jogos, computadores, roupa, tudo e mais alguma coisa que ele nem precisava. Enfim, era este o significado do Natal para o Afonso: prendas. Eduardo, pelo contrário, só queria passar um dia inesquecível com os pais, e claro, ter um pequeno presentinho para lembrar o Natal. Finalmente, chegara o tão desejado dia. Afonso acorda e aproxima-se rapidamente da árvore. Mais de três andares de presentes, caixas enormes e pequenas, de todas as cores, pesadas e leves, estavam à sua frente. Ele nem sabe por onde começar. Pelo lado esquerdo ou pelo direito? Pelas prendas maiores ou pelas mais pequenas? De repente, entregou-se ao fim do mistério e abriu as caixas embelezadas com as mãos, com os dentes e até com os pés. Do outro lado, Eduardo abre os olhos e com um enorme sorriso desce as escadas e vai ao encontro da árvore. E lá estava a bola que tanto desejara. Agora já podia jogar futebol, o seu desporto preferido. Estava desejoso de contar aos seus amigos e poder jogar com eles, mas isso só seria possível no regresso às aulas. Depois, decidira dar uma volta para aproveitar o dia, mas demorara muita e estava quase na hora de jantar. No regresso passou pela casa do Afonso e olhou para dentro. Na sala estava uma enorme árvore, decorada e cheia de luzes. Papéis de embrulho, todos rasgados, preenchiam o chão, enquanto o Afonso jantava calmamente. Do lado de fora sentiu o cheiro a frango assado o que abriu ainda mais o apetite do Eduardo. Já demorara mais do que o previsto, por isso apressou o passo até a sua humilde casa. Chegou a tempo do jantar que foi simples, embora envolvido num clima familiar afectuoso e feliz. De regresso à escola, Eduardo jogava à bola e Afonso gabava-se aos amigos que tinha isto e mais aquilo. Nesse mesmo dia, a professora pediu para eles falarem do seu Natal e , assim o fizeram. Infelizmente, o egoísta do Afonso começou a gozar do Eduardo por ele ser de cor diferente e que era por isso que só recebera um presente. A chacota prolongou-se ao longo do ano até que a mãe de Afonso apanhou-o a dizer mal de Eduardo, como "ele era preto", e que "não merecia" e por aí fora. A mãe perante tal atitude do filho, decide contar-lhe a verdade: que o Pai Natal não existe e que como eles eram ricos podiam comprar-lhe tudo o que ele queria. Também disse que lá por o Eduardo ser de cor diferente não significava que ele não merecesse tanto ou mais do que ele. Daí em diante começou a reprimi-lo por todo o mal que ele fizera ao rapaz de olhos negros. Afonso sentiu-se mal consigo próprio. Foi uma desilusão para ele saber que o Pai Natal não passava de uma mera ilusão, mas a maldade que ele fizera pesava-lhe na consciência. No ano seguinte, as pessoas já começavam a pôr as luzes e a enfeitar as casas. O espírito natalício estava de volta, assim como a neve. A mesma história repetia-se: Eduardo esperava com ansiedade a chegada do Pai Natal e Afonso, mesmo sabendo que o Pai Natal não existia, escrevia uma longa lista de presentes, cumprindo o seu ritual. Afonso não aprendera nada com a mãe. Algo de inesperado aconteceu nesse ano. Ao contrário de Eduardo, Afonso não acordou nem abriu os presentes. Eduardo recebera umas sapatilhas novas. Foi então que bateram à porta. Eduardo abre e vê Afonso. - Feliz Natal - Gritara Afonso, mas estava com um sorriso irónico na cara. - Feliz Natal para ti também. Lá fora a neve caía lentamente. O silêncio reinava e Eduardo ficou a olhar para Afonso à espera que este dissesse algo, como o motivo de estar ali, mas ele não proferiu qualquer palavra. Não aguentando, perguntou, pois a curiosidade foi maior: - Que fazes por estes lados? - Não posso! - Retorquiu Afonso. - Vieste gozar comigo, não foi? Tal como fizeste ao longo do ano? Afonso ficou ali, sempre calmo, até que reagiu: - Anda comigo! - Disse Afonso pegando na mão de Eduardo, quase que o empurrando até lá fora. À sua frente estavam três andares de prendas, coloridas e de todos os tamanhos, tal como vira no ano anterior em casa do Afonso. - Toma! São para ti! Feliz Natal! - Afonso mostrava um lado que Eduardo desconhecia. - Mas, porque razão estás, agora, a oferecer-me estes presentes todos? - Perguntou o rapaz de olhos negros. - Porque tenho demais, e queria pedir-te desculpas pelo que te fiz. Afonso ficara triste de repente. Eduardo arregalou os olhos e brotaram lágrimas que lhe caíram pelas faces. Afonso mudara e isso fazia-o feliz. Depois de recompor-se, virou-se para o rapaz de olhos verdes: - Queres vir brincar comigo? - Sim! E Assim passaram essa tarde: a brincar na neve ... como se fossem irmãos. Não importa se és preto ou branco, rico ou pobre, o que importa é a intenção vinda do coração.