Apesar do bom tempo que a Metereologia prevê para estes dias, o Natal que hoje assinalamos tem cheiro a chuva. A ribeiras cheias. A pedras nos passeios da cidade. A pedregulhos nas estradas regionais. Árvores caídas, arrancadas. Asfalto levantado. Adufas deslocadas. Casas alagadas. Gente que ficou sem nada. E uma floresta que foi devastada por causa de uns incendiários, talvez inimputáveis, que pintaram de negro grande parte do nosso verde. Eu sei que hoje é dia de Festa. Também sei que não adianta olhar para trás, que o caminho faz-se caminhando. Que para a frente é que é o caminho! Mas é impossível não ver o espelho que a vida nos põe diante dos olhos. Uma espécie de retrovisor que nos faz ver a nossa real dimensão perante o poder de uma Natureza que não pede licença para passar. Em dia de Festa, de família, de amigos, este quadro deve ser posto de lado sobretudo por aqueles que passaram quase ao lado das catástrofes. Mas a Festa não dura sempre. Mesmo que na Madeira as oitavas e as 'pontes' prolonguem o arraial, um dia vamos ter de parar para pensar. E esse dia deve ser o mais rápido possível. Não é fazendo estudos caríssimos só para dizer que o fizémos, não é protelando decisões, nem é preciso ir à bruxa. É preciso juntar os melhores e usar o que de melhor cada um tem a sugerir. Sem preconceitos, sem rótulos, sem divisionismos bacocos. Sem ameaças de tribunal por que se pensa diferente. Governar exige firmeza, mas reclama humildade. Roga pragmatismo, mas pede contributos. E respeita quem tem ideias, mesmo que elas colidam com as ideias feitas a favor de alguns, normalmente os mesmos, os amigos do poder. Os que ganham tanto na desgraça como na graça da vida. Os que tanto enchem a carteira com a limpeza da floresta ardida como com a limpeza da ribeira. Os que ganham tanto com as enxurradas como com os incêndios. Nestes dias de bonomia, de tradições e presépios, licores e bolos estes temas devem ser postos de lado. O problema é que nesta terra, à Festa natalícia sucedem-se as festas dos pêros, das bananas, dos bailinhos e das castanhas. Nessa festa permanente, vivemos anestesiados, distraídos. Mesmo os mais atentos deixam-se levar por uma alegria efémera que tem o peso de grilhões mas sob o doce sabor das tradições. Vem aí o fim-de-ano, os Reis Magos, o Santo Amaro, as eleições presidenciais e está preenchido o calendário de diversões de Janeiro. A seguir vem o Entrudo, a Festa da Flor, a Páscoa, o Verão, as eleições legislativas, as eleições regionais e logo a seguir chega o Natal. Na voragem do tempo, parece que não sobra espaço para pensar. Mas sobra. Nós é que nos dispensamos de pensar!
Bom Natal!