A palavra está na boca do mundo: «crise»; e todos nós receamos o futuro. Numa sociedade baseada no consumo, do essencial e do supérfluo, é natural que a ameaça contra essa forma de estar na vida nos assuste. No entanto, esta época natalícia é a prova de que pouco está a mudar. Esquecido o verdadeiro Natal, a maior parte de nós comemora-o nas atitudes mais egoístas: nas prendas a rodos para quem tudo tem e nas indigestões alimentares de tanto comer e beber. O consumo excessivo, que nos tem levado, como sociedade e como indivíduos, ao endividamento e ao défice, não é só um problema económico. Consumir mais do que temos é também um problema ambiental e social. Apesar do Estado português ter gasto 7% a mais do que o que tinha, aumentando o endividamento do país, o défice ecológico foi ainda maior. Nos últimos anos, Portugal e os portugueses têm consumido 2,5 vezes mais recursos do que aqueles que existem no mundo para a nossa população, ou seja, um défice de 250%. O Natal e a crise devem levar-nos a reflectir se os sonhos que nos conduzem à felicidade estão baseados no SER ou no TER. Se continuarmos a consumir mais recursos dos que aqueles que a natureza consegue repor e a produzir mais poluição do que a que o ambiente consegue purificar, estaremos a condenar a humanidade a graves problemas de sobrevivência nos próximos tempos (muitos já se fazem sentir hoje, como são as alterações climáticas, o avanço da desertificação e a perda de biodiversidade). Em Agosto de 2010 a humanidade já tinha consumido os recursos que a natureza produziu para todo o ano. Está nas nossas mãos alterar isto. Depende dos actos de cada um de nós e de deixarmos de aceitar de forma indiferente as asneiras que os governantes que elegemos continuam a fazer. Por exemplo, neste Natal a cidade do Funchal está iluminada por 400 mil lâmpadas, a maioria lâmpadas ineficientes (incandescentes) que gastam muita energia eléctrica. Existe tecnologia de iluminação que consegue gastar 4 vezes menos, permitindo poupar nos custos públicos de iluminação e na poluição provocada pela queima de fuel na central térmica dos Socorridos (as lâmpadas existentes podem estar a gastar 5600 euros por noite mas se fossem utilizados LEDs poderia baixar para 1400 euros). Este é apenas um exemplo de como o Natal poderia ser mais sustentável mas, infelizmente, a hipnose colectiva em que todos estamos enredados não nos deixa ver muito para além dos laçarotes e do bonito papel de embrulho.
Hélder Spínola