Dei por mim um dia destes no "Alfa Pendular" Lisboa / Faro. Para quem vai da ilha onde não há comboios, longe ou distância, estes quilómetros suaves de paz, conforto, pinheiros, cedros e oliveiras pelo interior sul do país levaram-me a mim. Havia sim, um monitor de televisão (mudo) que transmitia documentários sobre filmes: "José e Pilar" e "A Última Estação" por exemplo. Dois documentários que certamente - e com muita pena minha - não passarão no nosso circuito comercial. Um sobre a vida a dois de José Saramago e Pilar Del Rio, o outro sobre os últimos dias de vida de Tolstoi. Com a referência destes dois filmes como que realçando a importância do género documental e longe da agitação da época com o tempo respirado na viagem desejei rever "O Grande Silêncio". A paisagem serena do percurso como que um veículo, transportou-me à obra de Philipe Groning. O realizador alemão viveu seis meses entre a comunidade de monges da Cartuxa, do Mosteiro de La Chartreuse nos Alpes franceses e com um trabalho artistico notável oferece-nos um espaço para experiências que conseguimos vivenciar. Durante cerca de três horas de silêncios a banda sonora do filme faz-se com gestos do dia-a-dia: lavar a loiça, cortar a lenha, tratar da horta, rapar o cabelo, costurar novos hábitos. A refeição comum dos domingos é acompanhada por uma leitura. Quando a noite cai soam os cânticos gregorianos. Com um filme asceta, Groning fez do cinema um convento e transformou-o num convite à contemplação. Como um monge que reza em silêncio. Quando não falamos, reflectimos. As percepções clarificam-se e a tranquilidade sente-se. Sem planear nem pensar no próximo momento, sem desejos e sem medos. No lugar da acção e de grandes emoções, faço desta obra a minha sugestão cinéfila - em DVD - para o Natal. "O Grande Silêncio" pode criar uma relação intensa com o que verdadeiramente somos. E não será este o primeiro passo para vivermos na Paz e Harmonia desejadas para a Época? É também este o papel do cinema. Bom Natal.
Teresa Mizon, Apresentadora de TV