“Que o espírito natalício perdure ao longo do ano”. A frase de tão repetida, nas homilias, nos cartões de boas festas, boca-a-boca, está gasta. Vazia e sem significado. Não há dúvida de que o Natal faz despertar coisas boas e belas. Que ficamos mais solidários, mais atentos ao que nos rodeia. É a altura da caridade, por excelência. Que arrumamos os brinquedos lá de casa e cedemos os que já não se usam aos desfavorecidos, que contribuímos com o que podemos para associações, seja com roupa ou com donativos. Mas esta solidariedade é uma espécie de 'desobriga' da consciência, que em muitos casos mais não é do que fruto de um sentimento egoísta de quem quer passar as festas tranquilo, sem pensar no outros, que estão longe da vista e do coração. Os outros que sofrem.
Não nos enganemos, o Natal desperta o melhor e o pior de nós. A paz, que tanto almejamos e apregoamos nesta época, sabemos que é podre à partida. Ficção. Existe apenas na nossa utopia festiva. Porque é no Natal que quem está só mais sofre de solidão. Que quem é pobre, de coisas e até de valores, mais miserável fica. Os mais velhos, os doentes, os sem-abrigo. E nós, simples mortais, não queremos nada mais do que um Natal descansado junto dos nossos. Com mesa farta, prendas no sapatinho, e, de preferência, com a crise bem longe da nossa porta. Na verdade, o espírito de Natal já perdura todo o ano. Nada mais é do que um espelho da sociedade, os seus defeitos e virtudes, engordados pelo subsídio de final de ano.
Sem falsos moralismos. As minhas festas não serão diferentes e como estou grata por isso. Pela mesa, pela família reunida, pela saúde. Terá uma nuance, contudo. Este ano estou certa de que me lembrarei dos outros. Talvez um dia, passe para o terreno e faça a verdadeira diferença, a que vai para além da 'desobriga', a que transcende o espírito natalício. Para já, tento tranquilizar-me dizendo o que todos dizem: “Faz-se o que se pode”. Sobressalto-me, porém, com a ideia de que um dia também possa ser um dos outros e que não haja quem faça mais do que pode.
Feliz Natal!