Ara Oliveira Espremendo o seu acordeão, sentado na sua cadeirinha em cima da ponte do Bazar do Povo, alheio à ribeira que corre tormentosa, liberta uma melodia que reclama uma letra batida: "Que sera, sera, whatever will be, will be...". Esta eterna contenda com a Mãe-Natureza a que o Homem foi condenado é desgastante. Como qualquer ser vivo, está em permanente luta para sobreviver e, no dia em que lhe faltarem as forças, será eliminado sem complacência. Mas a Humanidade, ambiciosa e sonhadora, leva este duelo ao extremo. A Natureza parece estar furiosa connosco, não por meras questões sentimentais mas simplesmente porque também Ela deve vassalagem às leis maiores do Universo, leis que regulam a matéria e a energia, essas sim intransigentes e implacáveis. E nós, os seis biliões, conseguimos a mesma atenção ou comiseração do Universo do que um adulto ao se cruzar por um bando de pré-adolescentes: é como se não existíssemos. Já a Natureza reconhece-nos como o seu enfant terrible. Nada lhe dá maiores dores de cabeça, mas também nada lhe presta maior homenagem do que a civilização. O Homem, na tentativa de compreendê-la, de explicá-la seja a um nível religioso, metafísico, artístico ou científico, pouco importa, está a engrandecer os seus feitos. Que melhores elogios à Natureza do que Gene Kelly a cantar "Singin' in the Rain", o "Avatar" de James Cameron, uma paisagem de Van Gogh, os frescos da capela Sistina, uma ponte a atravessar o rio, um porto a proteger das vagas, um arranha-céus desafiando a gravidade, uma levada para transportar água às plantações ou uma vacina para combater um vírus? Gosto de acreditar que a Natureza, cansada de milhões de anos de esmerada e fabulosa criação anónima, precisamente por nunca ter recebido o devido reconhecimento, num assomo de vaidade criou o Homem. Finalmente seria admirada. Já muitas civilizações desapareceram nesta "curta" história da Humanidade, mas todas elas deixaram marcas de respeito e de adoração à Mãe-Natureza. Muitos entre nós, os que se auto-intitulam como os verdadeiros guardiães da Natureza, querem "voltar às árvores", ao "Bom Selvagem" rousseauniano. Puro engano, não foi para isso que a Natureza nos criou. Na verdade, a maioria dos que defendem fervorosamente o regresso às origens para tentar salvar a Humanidade, se lhes retirassem o telemóvel, a viatura, a electricidade ou a água canalizada, ou uma qualquer outra mordomia da modernidade, entrariam em pânico e renegariam rapidamente as suas convicções. "Lutar" com a Natureza não é uma opção, é uma condição de vida. A Humanidade caminha serenamente para o seu destino e o "que sera, sera…"