"É impossível não ficar em permanente protesto" Paulo Freire A disforia pauta o sentir apreensivo face ao evoluir do momento presente. Não era este o resultado esperado após trinta anos de democracia no nosso país. Tivemos até épocas de oásis, governos que anunciaram o fim da crise. Achámo-nos ricos, presa fácil de compulsões consumistas, sem cuidar que, qual Fausto, teríamos de pagar com a alma o preço da riqueza fictícia. As promessas de crédito bancário, pré-aprovado, oferecido em casa, traziam dinheiro vindo de algures acompanhado da sugestão: "compre o carro dos seus sonhos" ou "faça a viagem que sempre quis fazer", ou ainda "renove o seu guarda-roupa!" Não se questionava a fonte alimentadora de tal leviandade financeira, sem controlo nem regulação. Agora afogados em dívidas e juros, somos simples moeda de troca, submetidos a lógicas irracionais de casino do poder financeiro transnacional, que controla a independência e liberdade dos países incautos. A democracia fica fora disto. Quando o problema principal do país é o desemprego elevado, da solidária Europa chegam recomendações para que se reveja a nossa rigidez laboral, nomeadamente as indemnizações em caso de despedimento. E obedientemente o governo anuncia medidas ditas facilitadoras da vida das empresas, aplaudidas por muitos. Esquece-se os despedidos sem aviso prévio, sem a justa e magra indemnização de um salário por ano de serviço, e que se calam por não terem condições de reivindicar na justiça o seu legítimo direito. Pretende-se fazer crer que assim se resolverão os problemas económicos e se criará mais emprego. Descansem, pois, os desempregados: com estas medidas, os contratos e as ofertas de trabalho vão chover como os aguaceiros de 20 de Fevereiro! A gente finge que acredita! Ninguém questiona porém, as indemnizações principescas pagas a altos quadros quando são demitidos, as clausulas douradas que pontuam contratos de gestores de topo, nem a atribuição de prémios de gestão obtidos muitas vezes na sequência de reestruturações empresariais, fonte de destruição de postos de trabalho. Relembre-se ainda as garantias estipuladas em certas parcerias público privadas, ou as exigências impostas a Portugal, em troca do financiamento da dívida. Interessante, por um lado, a indignação contra as medidas do governo açoriano face aos cortes dos salários dos funcionários públicos, e por outro, a complacência em relação à distribuição antecipada de dividendos a accionistas de empresas, numa cobarde fuga ao devido pagamento de impostos, agravados no próximo ano - tudo dentro da lei, dizem, mas pouco ético - impedindo assim uma justa redistribuição de riqueza. Sabe-se que a dimensão dos problemas coloca novos desafios à dicotomia esquerda/direita na acção política. Mas de um governo que se diz de esquerda esperar-se-ia outra sensibilidade social. Só os trabalhadores não podem ter direito a qualquer garantia ou compensação em caso de despedimento. Pretende-se que todos façam parte da classe social, herdeira do proletariado de outras eras: precários / intermitentes / vulneráveis / submissos: a escravatura moderna, à mercê daqueles empregadores que afirmam sem rebuço, só querer contratar quem tem contas para pagar. Rigidez laboral, onde? Querem fazer-nos crer que só há este caminho, na resolução dos grandes problemas do nosso tempo; que o desemprego é uma fatalidade e que sempre houve e haverá pobres. Mas à luz dos Direitos Humanos, sabe-se que não tem que ser assim. Como disse Paulo Freire, "é preciso mesmo brigar para que se obtenha um mínimo de transformação da realidade" e encetar a cada dia o caminho para a utopia, com "as marchas históricas dos que se recusam a uma obediência servil, dos que se rebelam". Júlia Caré, Docente
"É impossível não ficar em permanente protesto" Paulo Freire
A disforia pauta o sentir apreensivo face ao evoluir do momento presente. Não era este o resultado esperado após trinta anos de democracia no nosso país. Tivemos até épocas de oásis, governos que anunciaram o fim da crise. Achámo-nos ricos, presa fácil de compulsões consumistas, sem cuidar que, qual Fausto, teríamos de pagar com a alma o preço da riqueza fictícia. As promessas de crédito bancário, pré-aprovado, oferecido em casa, traziam dinheiro vindo de algures acompanhado da sugestão: "compre o carro dos seus sonhos" ou "faça a viagem que sempre quis fazer", ou ainda "renove o seu guarda-roupa!" Não se questionava a fonte alimentadora de tal leviandade financeira, sem controlo nem regulação. Agora afogados em dívidas e juros, somos simples moeda de troca, submetidos a lógicas irracionais de casino do poder financeiro transnacional, que controla a independência e liberdade dos países incautos. A democracia fica fora disto.
Quando o problema principal do país é o desemprego elevado, da solidária Europa chegam recomendações para que se reveja a nossa rigidez laboral, nomeadamente as indemnizações em caso de despedimento. E obedientemente o governo anuncia medidas ditas facilitadoras da vida das empresas, aplaudidas por muitos. Esquece-se os despedidos sem aviso prévio, sem a justa e magra indemnização de um salário por ano de serviço, e que se calam por não terem condições de reivindicar na justiça o seu legítimo direito. Pretende-se fazer crer que assim se resolverão os problemas económicos e se criará mais emprego. Descansem, pois, os desempregados: com estas medidas, os contratos e as ofertas de trabalho vão chover como os aguaceiros de 20 de Fevereiro! A gente finge que acredita!
Ninguém questiona porém, as indemnizações principescas pagas a altos quadros quando são demitidos, as clausulas douradas que pontuam contratos de gestores de topo, nem a atribuição de prémios de gestão obtidos muitas vezes na sequência de reestruturações empresariais, fonte de destruição de postos de trabalho. Relembre-se ainda as garantias estipuladas em certas parcerias público privadas, ou as exigências impostas a Portugal, em troca do financiamento da dívida.
Interessante, por um lado, a indignação contra as medidas do governo açoriano face aos cortes dos salários dos funcionários públicos, e por outro, a complacência em relação à distribuição antecipada de dividendos a accionistas de empresas, numa cobarde fuga ao devido pagamento de impostos, agravados no próximo ano - tudo dentro da lei, dizem, mas pouco ético - impedindo assim uma justa redistribuição de riqueza. Sabe-se que a dimensão dos problemas coloca novos desafios à dicotomia esquerda/direita na acção política. Mas de um governo que se diz de esquerda esperar-se-ia outra sensibilidade social.
Só os trabalhadores não podem ter direito a qualquer garantia ou compensação em caso de despedimento. Pretende-se que todos façam parte da classe social, herdeira do proletariado de outras eras: precários / intermitentes / vulneráveis / submissos: a escravatura moderna, à mercê daqueles empregadores que afirmam sem rebuço, só querer contratar quem tem contas para pagar. Rigidez laboral, onde?
Querem fazer-nos crer que só há este caminho, na resolução dos grandes problemas do nosso tempo; que o desemprego é uma fatalidade e que sempre houve e haverá pobres. Mas à luz dos Direitos Humanos, sabe-se que não tem que ser assim. Como disse Paulo Freire, "é preciso mesmo brigar para que se obtenha um mínimo de transformação da realidade" e encetar a cada dia o caminho para a utopia, com "as marchas históricas dos que se recusam a uma obediência servil, dos que se rebelam".
Júlia Caré, Docente