C. Correia É com um profundo sentimento de tristeza que descobri que afinal na RAM ainda há quem sofra muito devido à dor! Presumi que já vivia numa Madeira que pertencia a um mundo desenvolvido, mas parece assim não ser. O motivo que me leva a escrever é precisamente a subvalorização e, diria mesmo, negligência, de sintomas apresentados por cidadãos que se dirigem a qualquer um serviço de saúde da RAM. Muito provavelmente não me incomodaria tanto se do sintoma de enfermidade a que me refiro não fosse a dor! Pois é, a dor parece não ser merecedora de atenção e tratamento adequado, repito, tratamento adequado, no serviço de saúde da RAM. Quantos de vós, prezados leitores, já recorreram, infelizmente, a um serviço de saúde na RAM e viram desvalorizada a dor que sentiam? Quantos de vós já recorreram, igualmente, a um serviço de saúde e viram desvalorizada a dor verbalizada por outros cidadãos? Com que serviço de saúde podemos nós contar, quando os profissionais de saúde que lá trabalham, de peito cheio se pavoneiam de batas verdes ou brancas, qual gurus da saúde e das ciências a ela mais ligadas, cheios de orgulho que roça a arrogância, desvalorizam sem dó nem piedade, sem profissionalismo nem humanismo, a dor a quem sente e a quem a "com-sente"! É lamentável, por exemplo, que um cidadão com cancro, numa fase que parece ser muito adiantada, esteja a aguardar, há cerca de 2 meses, por analgésicos mais potentes, porque os médicos do serviço mais próximo (Centro de Saúde e Serviço de Urgência da localidade) apesar de terem tratado com analgésicos (paracetamol e tramal) que se revelaram insuficientes, aguardam que o especialista tome uma posição e encaminhe para uma consulta que dizem ser da dor. Então, como o especialista necessita de fazer exames (dizem ser para determinar a fase da doença), mesmo que o cidadão esteja a sofrer dores atrozes, tem que aguardar porque só depois do exame feito é que será elaborado um relatório minucioso que será enviado para o outro colega (o especialista em dor). Em seguida, este especialista em dor irá, com certeza, analisar o relatório enquanto o cidadão aguarda (em lista de espera). A posteriori ,o doente será chamado para ser devidamente consultado e, então, finalmente, será aliviada a dor… Porquê tanta burocracia quando o que se passa é tão desumano?!
Enquanto isto… há alguém que sofre com dor; há alguém a quem não são respeitados direitos Fundamentais da constituição da República Portuguesa e dos direitos Humanos; há alguém a quem a dor, caprichosamente, vai dilacerando sonhos, esperanças e transfigurando os minutos e os dias; há alguém cujo corpo físico, psicológico e emocional está a ser esquartejado pela dor, por uma dor que poderia ter sido prevenida e tratada se o nosso serviço de saúde existisse para os cidadãos. Desejo que todos os que sofrem por dor, nomeadamente dor oncológica, tenham a sorte de ser cuidados com dignidade, tal como merece qualquer ser humano, sem estarem à mercê dos caprichos dos Senhores Doutores e dos processos burocráticos que inventam.
Um bem-haja a todos os que sofrem com dor e aos seus familiares que em pleno século XXI são autênticos mártires!