Os actos e os eventos que marcam a tradição, os costumes e os hábitos de algumas populações ou sítios, voltaram a ser moda. O que antes era piroso e brejeiro, na opinião de alguns recém-chegados ao mundo da cultura, três ou duas décadas atrás, foi ganhando protagonismo, face ao vazio que algumas manifestações, ditas ‘avant-garde’, mostraram. Nada mais eram do que cópias de modelos de outras terras e de outros povos, que não tinham por aqui a mesma dimensão, nem ganharam o mesmo culto. Voltámos ao culto do que é nosso, do que marca gerações, que se redefine em cada tempo e se adapta com espíritos abertos e novos artistas que, em cada ciclo, recriam o que herdaram de gerações. E sem desprimor para o que considero ser universal, porque nos traz o conhecimento do mundo e de outros povos, o certo é que nas terras pequenas, como a nossa, a recente valorização desses actos e eventos faz-nos reflectir em direcção a uma cultura própria. Caímos em nós e elevamos, com algum orgulho, a vaidade de sermos de onde somos, agora sem complexos de cantar ao despique ou entrar numa roda de bailinho, num qualquer arraial, entre um espeto de carne e um colar de rebuçados… mesmo que intervalados pela actuação de um artista nacional em voga, que dirá que sempre amou a Madeira e o seu Povo, e que nos diverte mais um pouco e anima todos, soltando lágrimas ou risos a uma plateia sem etiqueta ou protocolo, que não perde a oportunidade de estar na festa. Surgem neste ciclo de ‘reprogramação cultural’ os arraiais de São Vicente e de Ponta Delgada, no Norte da ilha. É fino passar por lá. Os que habitualmente bebem até cair, descansam o corpo nas bermas das ruas onde pontuam os carros novos de marcas caras, e nos adros das igrejas em festa o povo é muito mais heterogéneo. A Noite do Mercado, no Funchal, onde pontualmente encontro antigos colegas do Liceu que vêm à Madeira neste tempo de Natal, é uma prova do reviver das tradições da nossa terra, uma prova do estatuto de moda que adquiriu na última década. Ganhou estatuto de festa popular numa noite em que os compradores já se abasteceram no supermercado e vão apenas passear e beber uns copos. Outros passeiam-se entre os demais, com algum exibicionismo, irritante, só porque é moda ir à Noite do Mercado. Ou para serem vistos em roda de gente bem… Eu vou ao Mercado esta noite, esperar na porta da ‘Favorita’ pelos convivas de todos os anos. Especialmente o meu amigo Aguiar, que, ano após ano, algumas vezes chegando à Madeira à noite e regressando a Lisboa na manhã seguinte, vem até ao Mercado dos Lavradores do Funchal ver os colegas que com ele, há 40 anos, compravam as maças e as anonas, a preços de saldo, aos agricultores exaustos, ensonados e estafados de dois dias e duas noites de mercado, e ainda levavam uns galhos de verdura para casa, a preços de liquidação. Eram os enfeites que alguém em casa sempre aproveitava, num tempo em que o plástico ainda não tinha substituído o cheiro a verdura e a serra, que de repente entrava nas nossas casas nesses dias de presépio. O cheiro de Natal perdeu-se, mas ganhámos a festa e o convívio. Quanto aos exibicionistas que irritam, mas não me incomodam, estou certo que, muitas vezes, se sentem estranhos neste ambiente popular. Para todos um BOM NATAL!