Não é preciso recuar muito no tempo para comparar o imponente caudal que inspirou o nome dado à Ribeira Grande. À distância, era possível admirar as margens de pedras roliças que cravavam o poder erosivo na paisagem agreste e delimitavam a área de acção do curso de água. Entretanto, instalaram-se núcleos residenciais, autorizaram-se pólos industriais e construíram-se estradas novas roubando o leito das ribeiras que, por um lado iam sendo asfixiadas, por outro delapidadas pelas pedreiras. Hoje, a pequena Ribeira Grande perdeu o 'amortecedor' de torrentes.

A pobre muralha de pedras soltas que teve de sustentar parte do troço do Caminho da Ribeira Grande é, além de uma fossada que não pode ser classificada de obra de engenharia, um pequeno exemplo sintomático de obstinação e desmazelo deste governo, prodigioso a colocar no adiamento a resolução dos problemas: emparelharam-se uns pedregulhos, enxertou-se terra, lançaram-se os tubos de água, luz e telecomunicações e borrifou-se a estrada com uma manta de alcatrão. A “solução provisória” foi engolida pela ribeira a 20 de Fevereiro. Os erros não tiveram emenda e tudo voltou a ser feito da mesma maneira. A ‘obra’ não durou dez meses sem que fosse vergada pela natureza, causando prejuízos imensos, eventualmente de forma irremediável. A Ribeira, a tal que é Grande, não deu tréguas e pôs a nu o mesmo erro humano, outra vez.

Penso que as soluções não seriam provisórias e a obstinação definitiva, se houvesse capacidade de ouvir especialistas que estudam, andam no terreno e tratam o ambiente por tu. Mas ouvir é uma virtude cada vez mais rara. Quando os ambientalistas alertavam, eram ‘profetas da desgraça’. Agora que acertaram nos prognósticos e reclamam a razão, são processados por calúnia e difamação...