As tragédias que se têm abatido sobre a Madeira – enxurradas e incêndios florestais - deviam fazer pensar as Autoridades sobre o tipo de acções que devem ser empreendidas para minimizar as consequências daqueles fenómenos – naturais e de origem antrópica.
Eu conheço bem as serras da Madeira, fui Administrador florestal no tempo em que os Serviços Florestais eram realmente um organismo interveniente e cientifica e tecnicamente apoiado.
Depois das enxurradas que tanta desgraça trouxeram , vieram os incêndios florestais. Eu não me lembro nos últimos 50 anos (já posso falar em 50 anos!!) da ocorrência de incêndios tão devastadores e extensos na Madeira, fazendo lembrar as referências históricas aos fogos activados pelos primeiros colonos.
Ora se é importante a reparação dos estragos causados na cidade pelas enxurradas e é fundamental o auxílio às famílias vitimadas pela tragédia, parece que não se quer encarar que o mais importante de tudo é impedir que voltem a acontecer consequências trágicas quando ocorrem fenómenos desta dimensão.
Investir nas obras de recuperação urbana, sim senhor, mas se não houver dinheiro para tudo, a meu ver deviam ser olhadas as prioridades, aquelas acções que garantam o menor impacto futuro.
Logo a seguir às chuvadas da temporada anterior, teria sido imperioso trabalhar em dois aspectos, simultaneamente:
Correcção torrencial nas linhas de água e simples linhas de escoamento Armação das encostas no sentido de permitir a plantação correcta de arvoredo e reduzir os caudais de escorrimento nas encostas Eu cheguei a trabalhar em diversas obras de correcção torrencial no Porto Santo, mas ninguém na altura quis investir nas mesmas obras na Madeira – nem nessa altura nem agora.
As descargas de entulhos no litoral é outra intervenção que não deveria ter sido feita sem um sério suporte científico, para orientar a sua localização, se outras soluções não existissem. Não se mexe no litoral sem saber muito bem o que se vai fazer.
Mas os políticos acham que por serem políticos sabem tudo e podem tomar as decisões que entenderem, sem necessidade de ouvirem quem sabe alguma coisa das matérias envolvidas, na Madeira como no Continente, e a forma mais fácil e imediata de reagirem é acusarem os críticos de ”ecologistas e ambientalistas” subversivos e incompetentes.
No Algarve abrem-se barras no cordão de ilhas-barreira do sotavento como se estivessem a brincar aos engenheiros; na Madeira não se mexeu uma palha nos dois domínios para os quais os técnicos que conhecem como reagem os territórios, aconselhavam.
As populações são infelizmente muito pouco informadas, o conhecimento geral sobre os problemas dos territórios é diminuto; não temos massa crítica capaz de impor aos políticos as acções tecnicamente correctas, e impedir as asneiras, sejam a plataforma logística na margem do Tejo, a alteração dos limites da ZPE da Reserva natural do Tejo para implantar o centro comercial, os aterros do Funchal, etc.
Não existe em Portugal a consciência, nem nas Autoridades nem nas populações, para uma politica de riscos que deve ser considerada essencial em qualquer pais civilizado.
A correcção torrencial e a armação das encostas na Madeira deveriam ter sido feitas com urgência durante os meses do Verão, pelo menos nos sectores mais sensíveis do complexo sistema de escoamento das encostas sul da ilha.
Agora rezem para que este Inverno não seja muito chuvoso, porque se o for nada impedirá que se repitam consequências trágicas para as encostas sul da Madeira.
Fernando Santos Pessoa - Engenheiro silvicultor e Arquitecto paisagista