O natal, confessemo-lo, tem o condão de nos abrir a alma. Sejamos cristãos ou não, tenhamos fé ou não. Aguça-nos a sensibilidade, fazendo-nos olhar para nós e para o outro de forma diferente. Talvez por isso, porque o natal é a quadra dos afectos, sempre que chega esta época dou por mim a pensar sobre aquilo que nos une uns aos outros. Dou por mim, ano após ano, a revisitar-me e a verificar, quase com prazer narcísico, que continuo a defender os mesmos valores de sempre. Nem o tempo, nem as injustiças, nem as asneiras cometidas nem as desilusões sofridas abalaram o meu idealismo pueril sobre a essência daquilo que nos deve unir uns aos outros. E fico feliz e reconciliada comigo própria porque o mundo lá fora não corroeu os meus alicerces. Porque o mundo lá fora não transformou em amargura ou vil cinismo a minha velha convicção de que o mais precioso que temos é o outro. Esse outro que damos como garantido e a quem sempre esquecemos de agradecer o simples facto de existir para nos aturar. Esse outro que, para os outros, é um ser anónimo, mas que, para nós, é uma dádiva, um reduto, o muro das nossas lamentações…

Sempre acreditei que, em termos de relações, não há limites. Ou se está lá ou não se está. Ou há entrega absoluta ou então não vale a pena. Não há meio termo. Não há "quase" nem "talvez". Só entrega incondicional e sob todos os riscos. Acredito no amor arrebatado e na amizade desinteressada que fazem emergir o que de melhor há em nós. Acredito na força da união entre duas pessoas, sejam elas mãe e filho, irmãos, amantes, amigos… Acredito que o amor e a amizade, quando são genuínos, são muito mais do que conforto e farra. São parceria, presença e ajuda constantes em maus momentos. O amor e a amizade, quando são verdadeiros, alimentam-nos, completam-nos, fazem-nos errar e, sobretudo, ensinam-nos a mais difícil lição que é dada a aprender ao ser humano - a capacidade de perdoar o outro e a si mesmo. Não há relações verdadeiras que não exijam a grandeza de perdoar, porque não há relações verdadeiras sem erros. O erro reduz-nos à nossa imanência; o perdão eleva-nos à transcendência. Por isso, não entendo… não entendo como é que, sendo a vida tão efémera, ainda nos damos ao luxo de esquecer vivê-la com aquele outro ou aqueles outros que, bem ou mal, têm sido as únicas testemunhas da nossa jornada… Que se lixem a crise, a austeridade do próximo ano, os impostos e as contas por pagar porque, nos próximos dias, eu só quero pensar nos "meus" outros, nesses outros que me ajudam a superar as minhas limitações. E sei que para o ano, depois de novas decepções, estarei outra vez nesta quadra a reiterar que não há limites nas verdadeiras relações. Porque só assim o natal faz sentido. Porque só assim tudo faz sentido.

Eker Sommer