Devido à globalização, a nossa economia tem de competir com as demais economias mundiais. Quando essa competição se processa ao abrigo de regras justas e transparentes, onde existe igualdade de direitos e deveres das partes, é o factor competitividade a determinar quem vende o quê a quem, pois teoricamente quem conseguir produzir melhor e mais barato, venderá mais, obtendo com isso os justos proveitos. Graças à evolução verificada através de todo o processo histórico, os cidadãos da OCDE e, especificamente, os pertencentes à União Europeia, gozam hoje de níveis elevados de qualidade de vida e de bem-estar, com direitos e deveres bem definidos e universalmente aceites, nos quais se incluem o direito a uma jornada de trabalho digna, a protecção na doença e a segurança social. A estabilidade laboral tem-se registado, ao longo das décadas, um equilíbrio que pouco tem oscilado com o facto de os partidos que conjunturalmente ocupam o poder serem de tendência mais à direita ou mais à esquerda, pois existem zonas de consenso entre empregadores e empregados sobre estas questões. Este status quo encontra-se, hoje, seriamente ameaçado pelo desenvolvimento dos países asiáticos que, chegados tardiamente à 1ª divisão da economia mundial, subvertem as regras existentes, manipulando-as ao sabor dos seus interesses. Todos nos lembramos do leite contaminado, dos brinquedos pintados com tinta tóxica, etc. A desregulamentação do trabalho, com jornadas de 15 e mais horas, os ordenados de poucas dezenas de euros, o desrespeito pelos direitos de autor, permitem a esses países colocar no mercado ocidental produtos a um preço muito inferior ao custo efectivo do mesmo produto quando de origem europeia. As lojas dessa quinquilharia rasca invadem as nossas cidades e são omnipresentes, destronando o comércio tradicional que empregava e pagava impostos no nosso país. A nossa população adere concupiscentemente ao engodo da pechincha, ao leve dois pelo preço de um, apregoado, na maioria das vezes, numa língua ininteligível, inconsciente de que cada artigo que compra no chinês ou no indiano é menos um artigo fabricado em Portugal, é menos um posto de trabalho que, cedo ou tarde, lhe irá bater à porta. Este problema poderia e deveria ser tratado à única escala possível, a da OCDE ou da Europa. Não o é, contudo, e presumivelmente não o será, pois às empresas ocidentais interessa sobretudo a deslocalização, para poderem produzir ao menor custo, só possível nesses países onde a desregulamentação já referida se alia ao total desrespeito pelo impacto que essa produção provoca no ambiente também global. Os países da Europa são coniventes com esta situação, pois a Sra. Merkel e o Sr. Sarkozy preferem vender os Airbus e os Wolkswagens aos chineses, a tentar negociar regras justas que protejam o cidadão ocidental do dumping social e ambiental que nos chega do oriente. Para mais, quem é que se importa com o Tibete e com aquelas armazitas e protecção à Coreia do Norte? Os chineses promoveram o capitalismo a um novo patamar, elevando-o à dimensão e à estratégia de um estado estruturado e bem "oleado" por décadas de totalitarismo e repressão, onde a oposição interna não existe, numa estratégia imperialista ancestral e sem pressas, cuja escala agora é o mundo. Compram a maior parte da dívida aos americanos, o porto de águas profundas aos gregos, andam de namoro com Sócrates deitando o "olho gordo" a Sines, com vista a uma penetração mais fácil no ocidente (que se põe a jeito), seguros de que quanto mais o fizerem, mais seguros se tornam e a sociedade das nações menos lhes "irá à mão", porque sabem muito bem que quem paga é quem manda e resolvem assim o problema da oposição externa. Uma das frases propagandísticas do maoismo (agora recauchutado, de gravata e com um ar limpinho) é que "venderá ao ocidente a corda com que este se enforcará". O dramático é que nós todos os dias compramos mais uns centímetros. Esta situação ameaça seriamente o nosso modo de vida. A não serem tomadas medidas que definam regras rigorosas para o comércio internacional, daqui a algum tempo, para sermos competitivos com os chineses e indianos, vamos também ter de trabalhar em troca duma tigela de arroz?

Hélder Melim, Professor