A suspeita instalara-se havia três dias. Não como uma probabilidade remota, como uma quase certeza. Não valia a pena desempenhar o papel de ave de asas atrofiadas e pernas ágeis. Mas quem está preparado para a palavra tumor quando a palavra tumor quer dizer cancro?

Andei todo o dia a adiar aquele telefonema. Devolvi dezenas de chamadas urgentes e não urgentes. Abri e apaguei centenas de mensagens enviadas por assessores que nunca vi. Escrevi milhares de caracteres. A confirmação chegou por sms: "Jovem, a Teresa tem um tumor no pulmão."

Fora internada na semana anterior com um derrame. Drenaram-lhe líquido - através de um tubo, via parede do tórax. Mandaram-na para casa. O líquido tornou a acumular-se. Agora, diagnosticaram-lhe um tumor na pleura, a membrana dupla que envolve o pulmão.

Horas antes daquela sms amarga, de outro hospital chegara uma sms doce: "A menina mais bonita do mundo e arredores nasceu. Chama-se Maria David. É pequenina como a mãe."

Em momentos de grande turbulência interior como este, quase consigo ouvir a voz da minha mãe: "A vida é assim, minha filha. Uns nascem, outros morrem." Naquele dia, evitei-a. Não arrisquei ouvi-la ditar tal sentença. Para a Maria David nascer, a Teresa não tem de morrer. Até a Beatriz, uma miúda de seis anos com uma costela de São Vicente e outra de Santa Cruz, sabe isso. Uma destas noites, despertou a chorar: "Eu não quero que a Teresa morra!"

Não planeei escrever sobre isto. Planeara escrever sobre a crise. Já tinha a crónica toda encadeada na cabeça. Faria uma espécie de balanço de 2010, Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza. E parecia-me nada mais importante haver a desejar para 2011, Ano Europeu do Voluntariado e da Cidadania Activa, do que trabalho/emprego digno para todos.

Ingenuidade.

Conheci a Teresa há uns dez anos. Nunca vira uma mulher tão enérgica, assertiva, cheia de ideias. Depressa lhe percebi o berço. Podia ser uma dondoca qualquer e, no entanto, é uma activista com uma espantosa capacidade de entrega aos direitos das mulheres e das crianças.

No dia em que lhe drenaram quatro litros da cavidade pleural, submeti-me a uma pequeníssima cirurgia. E ela enviou-me uma sms: "Correu bem o ossito? Se precisar, venha para esta enfermaria."

Dorme sossegada Beatriz, a Teresa não está a morrer. Repara: o próximo Ano Europeu é dedicado à Teresa. Ela andará por cá muitos anos e obrigar-nos-á a andar, a toque de caixa, à frente dela. Hei-de apresentar-lhe a Maria David. Aposto que vão gostar uma da outra.

Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público